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20 outubro, 2009

Esquizofrenia: vivendo dentro e fora da realidade

Por Emanuelle Bezerra

“Nunca soube diferenciar muito bem o que eu vivia de verdade e o que eu inventava”. Diva O. teve que conviver com esta vida dividida entre o real e o imaginário até o casamento, quando seu marido percebeu algumas características incomuns e a levou ao psicólogo. Ela logo foi encaminhada a um psiquiatra que finalmente a diagnosticou como portadora de esquizofrenia. A doença, que acomete cerca de 1% da população mundial, não é tão facilmente identificada. Diva passou toda a juventude apresentando os indícios, mas sua família nunca desconfiou que a menina que queria morar em um submarino acreditava mesmo que fazia parte da “Força Secreta de Inteligência do Brasil”.

A perda de contato com a realidade é um dos principais sintomas para o diagnóstico, traçado a partir do histórico do paciente. Não há causas exatas e nem ao menos um exame laboratorial específico. O que se sabe é que a esquizofrenia é uma doença relativamente comum e que seus portadores podem experimentar mudanças na sua forma de pensar e sentir. Com isso, suas relações afetivas e sua capacidade de viver em sociedade podem ser prejudicadas.

Para muitos pesquisadores a esquizofrenia é resultado de uma combinação de fatores genéticos e ambientais. O Dr. Miguel Jorge, professor associado do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP, acredita que a hereditariedade é um fator importante, mas que o ambiente deve ser de igual forma observado. Ele exemplifica com gêmeos univitelinos, que caso um deles apresente a doença, a probabilidade de o outro também apresentar é de 60 a 70%. “Como eles têm exatamente a mesma carga genética, se a esquizofrenia fosse determinada apenas por fatores genéticos, esta probabilidade deveria ser de 100%. Isto demonstra que fatores psicossociais também contribuem para a determinação da esquizofrenia”.

Diva foi a primeira em sua família a apresentar o transtorno, mas para sua surpresa seus três filhos, todos homens, com idades de 22, 19 e 18 anos, também desenvolveram a doença na adolescência. Apesar de já ter sido tranquilizada inúmeras vezes pelos médicos e terapeutas que acompanham a família, ela se culpa pela condição dos meninos. “Em mim a doença apareceu mais tarde. Eu já tinha meus 27 anos. Já meus filhos desde muito novos foram diagnosticados. Eu sei que é por conta de alguém como eu tê-los educado”. Quanto à idade para o surgimento da doença ela está enganada, pois segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria [1] a esquizofrenia se manifesta mais tarde nas mulheres, entre os 20 e 30 anos, e nos homens o aparecimento ocorre no início da adolescência, por volta dos 15 anos.

Wagner Gattaz, psiquiatra e professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, acredita que a esquizofrenia é uma doença própria da condição humana. Ele baseia-se no fato do transtorno se manifestar universalmente, em todas as etnias, culturas e classes. Em entrevista ao portal do médico Drauzio Varella [2], ele diz que nem tudo pode ser explicado pela genética, mas usa o mesmo exemplo do Dr. Miguel Jorge, o caso dos gêmeos, para dar maior destaque à hereditariedade. Os dois médicos concordam, entretanto, que os fatores ambientais são muito mais profundos do que, por exemplo, a criação dada à pessoa, como pensa Diva. Eles variam das condições obstétricas, período do ano em que a pessoa nasce — há um número maior de portadores da doença nascidos nos meses mais frios –, a dieta e até mesmo o uso de drogas na adolescência. Dr. Gattaz completa dizendo que a doença é realmente muito comum. Em cada 100 mil habitantes, surgem de 30 a 50 novos casos por ano. Atualmente, 5% da população mundial têm esquizofrenia. No Brasil, segundo o psiquiatra, há 800 mil habitantes portadores da doença.

Confusão de pensamentos

Existem vários níveis de manifestação da esquizofrenia. Na fase inicial, os transtornos do pensamento, os delírios e as alucinações são os sintomas mais comuns. Os delírios são gerados a partir de um julgamento errado a respeito da realidade. Mesmo que haja provas contrárias à crença do indivíduo, ele fica tão convicto que não aceita a argumentação lógica. Além disso, o portador tem a sensação de que os seus pensamentos estão sendo influenciados, controlados ou até mesmo transmitidos para fora da cabeça. Há ainda os que acreditam ter poderes especiais ou funções excessivamente importantes para o mundo.

Em outro momento podem ocorrer alucinações, que são percepções falsas, mas que para o doente são extremamente reais. As mais comuns são as auditivas, que fazem o paciente pensar que está ouvindo barulhos, músicas e vozes. Elas podem ser claras ou apenas sussurradas. Muitos pacientes relatam ouvir ordens e comentários a respeito das outras pessoas. Um portador de esquizofrenia pode também ver objetos e até mesmo pessoas, com as quais passa a interagir. Em um momento mais avançado há alucinações olfativas e gustativas, que em geral ocorrem juntas, quando o indivíduo sente cheiros e gostos ruins. Também há alucinações táteis, que são sensações de toque, picadas, insetos rastejando sobre a pele e choques elétricos.

Outro sintoma da esquizofrenia são os distúrbios formais do pensamento. A pessoa tem dificuldade de fazer conexão entre um tópico e outro, na falta de palavras para se expressar ela cria novas, repete sílabas e passa a emitir sons ao invés de dizer o vocábulo completo. Além disso, ela pode sofrer bloqueios de pensamentos e assim deixar a fala desorganizada ou fragmentada. A comunicação verbal pode se tornar impossível para os pacientes. Nesta primeira fase já é possível identificar o tipo de esquizofrenia que o indivíduo apresenta. Entre os mais comuns estão a paranóide, catatônica, simples e depressiva, ainda que não se faça mais nenhuma categorização da doença.

Esquizofrenia

De acordo com o Dr. Miguel Jorge, o delírio paranóide e as alucinações são os mais prejudiciais, pois eles comprometem a vida cotidiana do paciente. O delírio paranóide geralmente acontece na fase aguda da doença e pode desaparecer na fase crônica, dando espaço para outros tipos de manifestação. O professor explica ainda que a esquizofrenia é um quadro essencialmente psicótico e assim pode não existir diferença alguma entre os sintomas característicos da fase aguda da doença e os de outras psicoses. O comprometimento da afetividade – o chamado “embotamento afetivo”, que se dá neste primeiro momento, pode ser um diferencial para outros quadros de natureza psicótica, tornando o diagnóstico mais claro.

Vida social prejudicada

A esquizofrenia pode causar a deterioração do comportamento social. O paciente começa a se isolar no mundo que constrói com seus delírios e alucinações e fica inacessível ao mundo exterior. Ele começa a ter menos iniciativa e pode ainda transgredir regras sociais, como despir-se em público. Podem ser surpreendidos falando sozinhos, gesticulando e tendo expressões faciais impróprias. Há aqueles que passam a ser descuidados com sua higiene pessoal ou a se vestir de forma inapropriada. Diva conta que seu filho mais velho, Marcelo, não tirava o uniforme da escola de futebol que frequentou até os 16 anos, quando começou a apresentar os sintomas. Até que na comemoração de seu décimo sétimo aniversário ele apareceu no playground com a roupa completa, meia até o joelho e chuteiras, mas a festa não era temática. O rapaz não ficou para cortar o bolo, não suportou as risadas dos convidados e passou a noite trancado no quarto. Esta foi a primeira vez que Diva viu o filho isolar-se, e desde então a comunicação com Marcelo foi ficando cada vez mais prejudicada.

Dos seus três filhos, ele é o que tem menos controle sobre a doença. Durante algum tempo Marcelo rejeitou os medicamentos e tornou-se bastante agressivo com a família. Hoje, com mais domínio sobre suas emoções, o rapaz já aceita ser medicado e faz terapias alternativas ao tratamento com remédios. Ele está na fase crônica da doença e, como demorou a ser tratado corretamente, tem uma recuperação mais lenta que a dos irmãos. Ele ainda apresenta o chamado estupor catatônico, que é a situação na qual o paciente fica imóvel por um período longo de tempo e perde os controles motores. “Da última vez estávamos em uma loja de departamento olhando os celulares novos. Nem iríamos comprar nenhum. Estávamos só olhando os novos modelos. Mas enquanto a vendedora explicava para ele como usava o aparelho que estava em sua mão, Marcelo perdeu o controle do braço que ficou estendido imóvel e deixou o celular cair. A vendedora, muito gentil não reclamou de o celular ter caído no chão, mas assim que voltou ao estado normal ele quis comprar o aparelho, que estava arranhado atrás”.

Transtornos motores como o de Marcelo também são sintomas comuns nesta fase da doença. O indivíduo pode ficar paralisado, como o filho de Diva, ou ter uma atividade motora sem objetivo e incontrolável, que é o excitamento catatônico. Também é comum que o paciente apresente maneirismos, que são atividades normais, mas exercidas fora de contexto. A estranheza que causam nas pessoas ao apresentar estes sintomas também colabora para o isolamento social, pois o paciente se sente desconfortável com a reação dos que estão ao seu redor. O passo seguinte a isso é a diminuição na resposta afetiva. Muitos se sentem “vazios de emoção” e por não conseguirem transmitir o que estão sentindo ou o entendimento que têm a respeito do mundo, tornam-se indiferentes ou apáticos.

A melhor maneira de tratar

Não é possível tratar um portador de esquizofrenia sem medicação, ainda que as doses possam ser paulatinamente diminuídas. No entanto, existem dispositivos que podem ser agregados ao tratamento que possibilitarão a reintegração mais rápida do paciente na sociedade. O Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ) é um dos pioneiros em agrupar dispositivos ao tratamento de transtornos mentais. Os pacientes conseguem ter lá dentro uma vida produtiva e bem normal.

Um exemplo é a oficina de culinária, onde há toda uma dinâmica médica por trás do ato de cozinhar. Existe ainda no hospital oficina de artes, biblioteca, na qual os monitores são os próprios pacientes, além de uma lavanderia. Por meio destas oficinas é possível gerar renda para os pacientes, uma vez que o que eles produzem pode ser vendido na cantina e no bazar do hospital.

O psicólogo Sidney Dantas, que também é musicoterapeuta do CPRJ, conta que esses dispositivos no tratamento, seriam inimagináveis nas décadas passadas, antes da Reforma Psiquiátrica [4], que teve início em 1970. “A partir desta data o que acontecia nos ‘porões’ dos sanatórios começou a vir à tona. Era uma falta de humanidade da própria classe médica, tratamentos violentos, que quando foram expostos, obrigaram as autoridades reformar o sistema”, conta. Quando ele chegou ao CPRJ ele foi para integrar o quadro de psicólogos, mas logo foi indicado para começar o tratamento com a música. “A aproximação com a arte, com a música é natural. O sujeito vem porque gosta de música, gosta de tocar, de cantar e isso já permite o tratamento. É claro que este dispositivo terapêutico não substitui os outros”.

O tratamento do portador de esquizofrenia em sua maioria era baseado no isolamento. A rotina não permitia que ele tivesse uma vida normal. Com a arte, vista inicialmente como um complemento, isso mudou. Segundo Dantas, o isolamento não permitia a melhora no quadro clínico, existiam atividades, mas eram impostas pelo Hospital. As oficinas de arte não funcionam assim, a iniciativa é do paciente. O psicólogo afirma que este dispositivo atende a uma necessidade real. “Desta maneira o paciente pode se expressar, interagir com o mundo, se sentir útil e aceito. Há algo que ele sabe fazer bem. Então escolhe as atividades com as quais tem mais afinidade e descobre e mostra seus talentos”.


O tratamento do portador de esquizofrenia em sua maioria era baseado no isolamento. A rotina não permitia que ele tivesse uma vida normal. Com a arte, vista inicialmente como um complemento, isso mudou. Segundo Dantas, o isolamento não permitia a melhora no quadro clínico, existiam atividades, mas eram impostas pelo Hospital. As oficinas de arte não funcionam assim, a iniciativa é do paciente. O psicólogo afirma que este dispositivo atende a uma necessidade real. “Desta maneira o paciente pode se expressar, interagir com o mundo, se sentir útil e aceito. Há algo que ele sabe fazer bem. Então escolhe as atividades com as quais tem mais afinidade e descobre e mostra seus talentos”.

Banda integrada por médicos e pacientes do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro [5]
Banda integrada por médicos e pacientes do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro

A partir destas oficinas nasceu dentro do CPRJ o grupo Harmonia Enlouquece [6], que conta com a participação de médicos, funcionários e principalmente dos pacientes. O grupo é um espaço aberto, que funciona como terapia desde 2001. Nestes oito anos, 40 pessoas já passaram pelo grupo que visa, antes de tudo, a saúde mental dos participantes.

A estrela do grupo, como apontam os outros integrantes, é Hamilton Assunção, músico e compositor. Ele recebeu o diagnóstico da doença há 25 anos e diz que só conseguiu melhorar de suas crises após integrar o grupo. O compositor se sentia muito privado do convívio social. E descobriu com a música que tudo é uma questão de querer se tratar. “A sociedade não tem respeito pela fragmentação do indivíduo. Sofri muito com as piadas de maluco. Sofri por querer interagir com as pessoas ao meu redor e não saber como. Aqui eu interajo não só com os amigos mas com os especialistas que sabem como tratar o doente. É uma melhora e tanto. Aqui existe um amor, uma identificação de ser humano. Eles dizem que se curam a interagir com a gente. Antes de vir me tratar aqui eu brigava à toa e era descontrolado, hoje sou muito mais tranqüilo”.

Hamilton conta que tudo o que escreve tem um “porquê” e “um para quem”. São recados para a sociedade. Ele é procurado por pesquisadores e produtores para compor músicas sobre os problemas sociais, como a luta contra o estigma da esquizofrenia. Uma de suas músicas, a Sufoco da Vida, estará na novela das oito e sua voz será dublada por um dos atores. Ele já está trabalhando no tema da próxima novela do horário nobre, retratará os problemas enfrentados por portadores de HIV.

O diretor do CPRJ Francisco Sayão, conhecido como Kiko, também integra o Harmonia Enlouquece e conta que o quadro de funcionários do Hospital já contou com uma bailarina e uma atriz. Profissionais que não estão diretamente relacionados à medicina mas que são de vital importância para o tratamento. “Quando a Secretaria de Saúde passou ‘um pente fino’ para tirar dos cargos administrativos pessoas que estavam irregulares também houve a necessidade de dispensar estas profissionais, o que foi muito prejudicial. Existe esta dificuldade, pois há a necessidade destes profissionais nos hospitais, mas não há a categoria profissional. O Serviço é muito beneficente. Então eu vejo a necessidade de se resgatar este profissional. Tem de haver uma maneira de suprir este espaço”. Kiko conta que os pacientes chegaram a fazer um abaixo-assinado para um trazê-los de volta, “eles sentem muita falta”.

O Harmonia Enlouquece pode ser encontrado todas as quartas e sextas, no auditório do CPRJ, com exceção dos dias de show. Os ensaios são abertos.

Luta contra o estigma

Referir-se a pessoas com este e outros transtornos mentais como loucos, esquizofrênicos, lesos ou malucos é rotular e estigmatizar um indivíduo que é portador de uma doença, que pode ser controlada. Para os médicos, estes adjetivos trazem sofrimento e desqualificam o paciente. Estas rotulações geralmente acontecem pela desinformação e o preconceito e geram a exclusão social. O Dr. Miguel Jorge é consultor do programa brasileiro do Open the Doors que no Brasil é chamado de S.O.eSq. Ele conta que a rejeição, a incompreensão e a negligência exercem um efeito negativo na pessoa, acarretando ou aumentando o auto-estigma, ou seja, o próprio paciente desenvolve uma imagem negativa de si mesmo. Na maioria dos casos isso é provocado porque as pessoas próximas aos pacientes não entendem a doença.

Alguns ainda têm idéias erradas a respeito das pessoas com esquizofrenia. Muitos pensam que elas têm “dupla personalidade” e que são perigosos por apresentarem um comportamento agressivo na fase aguda da doença. “As pessoas não sabem o que falam. Meus filhos nem podiam mais andar com os primos, porque suas tias tinham medo de que eles pudessem bater ou fazer mal para os outros. Mas o mal maior era o que elas provocavam neles”, desabafa Diva.

O “Schizophrenia: Open the Doors” é desenvolvido em 20 países em todo o mundo desde 1996. Quando o programa chegou ao Brasil, em 2001, ele também deu origem à Associação de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia, o ABRE [7]. A associação e o S.O.eSq. [8] desenvolvem atividades para os pacientes, para as pessoas próximas a eles, profissionais de saúde e de imprensa com a finalidade de que este quadro negativo seja revertido.

Jorge conta que ao longo dos últimos anos o programa tem ajudado a diminuir o estigma relacionado a alguns transtornos mentais, como a depressão e o pânico, mas ainda não se notou melhora efetiva em relação à esquizofrenia. Ele acredita, no entanto, que a sociedade está mais aberta a receber informações sobre as doenças mentais e cita como um ponto positivo a TV brasileira abordar o tema, como acontece na atual novela das oito. Ele aconselha ainda a todos os familiares e amigos de portadores de esquizofrenia a se associarem ao ABRE, aprender mais sobre a doença e participar de ações que combatem o estigma.

Esquizofrenia e inteligência

Em 1994 o Prêmio Nobel de Economia foi dado ao matemático e economista John Forbes Nash. Ele viveu dividido entre a sua genialidade e a esquizofrenia, que o levou ao internamento inúmeras vezes. A história de Nash tornou-se mundialmente conhecida por ter sido contada no filme “Uma mente brilhante” e ajudou a difundir mais conhecimento sobre a doença e quebrar alguns paradigmas. Desde então, a inteligência e a esquizofrenia passaram a ser associadas no imaginário coletivo. Em 2007, um estudo feito por pesquisadores americanos mostrou que as duas podem sim estar ligadas por um gene que aumenta a habilidade do cérebro de pensar.

A pesquisa feita pelo Instituto Nacional para Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH, na sigla em inglês) [9] sugere que o desenvolvimento além do normal de capacidades intelectuais pode fazer com que determinadas pessoas corram o risco de desenvolver a doença. O trabalho revela que alguns dos fatores genéticos ligados a capacidades cognitivas podem apresentar problemas tornando alguns indivíduos propícios a desenvolverem transtornos mentais. Uma variação comum do gene DARPP-32, que faz com o processo de transmissão de informação seja mais eficiente, também foi ligada às funções cerebrais constatadas em portadores de esquizofrenia, em uma avaliação com 257 famílias com históricos da doença.

Na ocasião da publicação do estudo o coordenador da pesquisa disse que há a possibilidade de um “efeito colateral” com este ganho. Há outros genes e condições de vida que não favoreçam que o cérebro administre o processamento muito veloz de informações, por isso, o efeito pode se tornar um problema e “congestionar” o cérebro, o que poderia provocar os transtornos mentais.


FONTE: Opinião e Noticia. Em 08/04/2009.

URLs in this post:

[1] Associação Brasileira de Psiquiatria: http://www.abpbrasil.org.br/

[2] portal do médico Drauzio Varella: http://drauziovarella.ig.com.br/entrevistas/esquizofrenia7.asp

[3] Image: http://opiniaoenoticia.com.br/wp-content/uploads/1204155253.jpg

[4] Reforma Psiquiátrica: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/relatorio_15_anos_caracas.pdf

[5] Image: http://opiniaoenoticia.com.br/wp-content/uploads/harmonia.jpg

[6] Harmonia Enlouquece: http://www.harmoniaenlouquece.com/

[7] ABRE: http://www.abrebrasil.org.br/

[8] S.O.eSq.: http://www.soesq.org.br/

[9] Instituto Nacional para Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH, na sigla em inglês): http://www.nimh.nih.gov/

15 setembro, 2009

Um quebra-cabeça em construção

Pesquisa FAPESP
Edição 163 - setembro 2009
Proteínas aprofundam noção da esquizofrenia como doença biológica
Por Maria Guimarães



A esquizofrenia não é novidade para quem assiste à novela Caminho das Índias, exibida pela TV Globo entre janeiro e setembro de 2009. Tarso, representado por Bruno Gagliasso, ouve vozes, acredita que lhe implantaram um chip debaixo da pele para roubar seus pensamentos, imagina que vai se dissolver e se descontrola em crises violentas. Os sinais que apresenta formam um quadro completo típico dessa doença que atinge uma em cada 100 pessoas – estima-se que sejam cerca de 1,8 milhão no Brasil. O biólogo Daniel Martins-de-Souza, agora pesquisador de pós-doutorado no Instituto Max Planck para Psiquiatria, na Alemanha, identificou uma série de proteínas envolvidas nos mecanismos bioquímicos da esquizofrenia que vêm ajudando a entender os detalhes de como ela causa todos esses sintomas.
Durante o doutorado no Departamento de Bioquímica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Souza examinou as proteínas produzidas no cérebro de sete pessoas saudáveis e de nove com esquizofrenia. “Cada região cerebral expressa milhares de proteínas diferentes”, conta. “Nós conseguimos reduzir para poucas dezenas as relacionadas à doença.” São proteínas que aparecem em quantidade alterada nos cérebros dos pacientes e podem dar pistas importantes sobre como a esquizofrenia surge e se manifesta. O trabalho foi orientado pelo biólogo Emmanuel Dias Neto, do Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria (IPq), parte do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e teve apoio financeiro da FAPESP e da Associação Beneficente Alzira Denise Hertzog da Silva (Abadhs).
Em busca dos estragos que a esquizofrenia causa no cérebro, Souza selecionou regiões que já se sabia relacionadas à doen ça: o córtex pré-frontal, responsável por certos tipos de memória, diferenciação de pensamentos contraditórios, determinação dos conceitos de certo e errado, comportamento social e expressão da personalidade; a área de Wernicke, uma porção do córtex ligada à fala, à linguagem e à comunicação; e o lobo temporal, que participa de processos cognitivos e afetivos. Essa distribuição de zonas afetadas dá uma dimensão da complexidade da esquizofrenia, palavra que significa cisão da mente.
Vários grupos de pesquisa no mundo todo têm se concentrado em analisar alterações genéticas associadas à doença, mas Souza defende o foco nas proteínas, o produto desses genes alterados. “Elas são os jogadores reais que agem no organismo”, justifica, já que um gene mais ativo não necessariamente se traduz numa concentração maior da proteína cuja produção ele comanda. “Confirmamos achados prévios e acrescentamos proteínas que ainda não tinham sido consideradas.” Este ano, os resultados já renderam quatro artigos científicos. Ele agora se concentra em algumas dessas moléculas alteradas para ver como elas participam do desenvolvimento da doença.
Comparar as zo nas do cérebro alteradas na doença mental é tarefa complexa. “A maioria das proteínas aparece em quantidades distintas nas diferentes regiões cerebrais”, diz Souza. O que ele pretende não é caracterizar o funcionamento de cada parte do cérebro, mas ver o que há de comum entre elas e que pode servir como um marcador da doença, que diferencie pacientes de pessoas saudáveis. “É isso que pode nos ajudar a compreender a esquizofrenia”, aposta. Ele começou então a caça por proteínas – algo como procurar estrelas específicas num céu estrelado – no laboratório de proteômica da Unicamp, liderado por José Camillo Novello e Sérgio Marangoni.
Com resultados promissores em mãos, o pesquisador partiu para o Instituto Max Planck de Psiquiatria na Alemanha em busca de um método mais sensível, que permitisse detectar até mesmo concentrações muito pequenas de proteínas: a análise de proteoma por shotgun, ainda não usada no Brasil. Com esse método mais refinado, foi possível usar até mesmo proteínas muito pouco abundantes para distinguir amostras de cérebros saudáveis daqueles com esquizofrenia.

Exame detalhado -
 Metade das alterações detectadas pelo grupo do IPq diz respeito à produção de energia nas células. Uma série de proteínas envolvidas na degradação de glicose e na produção de adenosina trifosfato (ATP), a molécula que fornece energia para as células, aparece em quantidade menor nos cérebros dos esquizofrênicos.  Já existiam pistas de que o metabolismo da glicose fica prejudicado nessa doença, mas não se sabia se isso seria uma causa dela ou uma consequência do tratamento. Para Souza, os achados favorecem a primeira opção. “As proteínas que identificamos comprovam que a degradação da glicose está alterada devido à ação de certas enzimas.” Mas a questão está longe de ser definida. Wagner Gattaz, diretor do IPq e orientador clínico do trabalho, explica que todos os pacientes tomavam medicamentos que afetam a atividade cerebral. “A possibilidade de esses medicamentos influenciarem parte de nossos resultados não pode ser descartada”, afirma.
Souza detectou altos teores de proteí nas que combatem o estresse oxidativo, indicando que, além de reduzir o aproveitamento da glicose, as alterações no metabolismo celular geram mais radicais livres, causando danos às células do cérebro. Ele explica que o próprio processo de gerar energia, dentro das usinas celulares que são as mitocôndrias, produz as moléculas oxidativas. Quando a concentração dessas moléculas – os radicais livres – chega a determinado nível, o estresse é tal que as mitocôndrias se rompem e os radicais livres se espalham pela célula.
O método detalhado permitiu enxergar também uma queda na quantidade de proteínas produzidas nos oligodendrócitos. São células importantes porque produzem a mielina, substância que reveste as projeções dos neurônios – as células nervosas responsáveis pela transmissão de informações. Sem mielina os nervos são como fios desencapados que deixam vazar a eletricidade pelo caminho. “Nossos achados sugerem uma alteração em dois marcadores ligados aos oligodendrócitos”, comenta Souza. Três dessas proteínas, a proteína básica de mielina, a transferrina e a glicoproteína da mielina do oligodendrócito, já tinham sido associadas a outra enfermidade sediada no cérebro: a esclerose múltipla. A descoberta sugere que, assim como a esclerose múltipla, alguns sintomas da esquizofrenia podem vir da degeneração do sistema nervoso.
A capacidade dos nervos de transmitirem informação também é afetada pelo cálcio. Souza detectou, por meio de alterações na produção de diversas proteínas, que as células do cérebro dos esquizofrênicos absorvem mais cálcio. Esse importante sinalizador de diversas funções celulares também regula a ação de enzimas que degradam a mielina, por isso um desequilíbrio em sua concentração pode significar perdas importantes nas funções nervosas. O cálcio controla ainda o funcionamento dos receptores de dopamina, um neurotransmissor cuja produção é excessiva na esquizofrenia. Os achados de Souza ajudam a determinar a cadeia que leva à atividade excessiva da dopamina, combatida por psiquiatras com medicamentos que bloqueiam os receptores ativados por ela.
As proteínas apontam ainda outros aspectos da esquizofrenia que merecem investigação mais detalhada, como as relações da doença com o sistema imunológico (estudos epidemiológicos mostram que pessoas cujas mães contraíram gripe durante a gestação têm um risco maior de desenvolver esquizofrenia) e com a estrutura das células. Um quarto das proteínas produzida em maior ou menor quantidade participa na formação do citoesqueleto, cuja modificação afeta a forma das células e também a capacidade dos neurônios transmitirem informações. As alterações têm até endereço certo: algumas das moléculas destacadas são exclusivas dos astrócitos, um dos tipos de célula nervosa que formam o arcabouço do cérebro e mantêm a estrutura onde se encaixam os neurônios. Embora o efeito na estrutura de algumas células seja flagrante na esquizofrenia e ajude a elucidar sua biologia, Souza não investirá nisso como marcador para diagnóstico. “Qualquer doença dá alterações no citoesqueleto”, afirma.
De volta à Alemanha para o pós-doutorado, Souza agora procura quantidades alteradas dessas mesmas proteínas no sangue e no líquor, o fluido que envolve o cérebro e a medula espinhal. Só assim – já que tirar amostras do cérebro de uma pessoa viva está longe de ser um exame trivial – será possível desenvolver um teste diagnóstico que poderia completar o exame clínico em casos nos quais a doença ainda não se manifestou por completo.

Multidimensional - Mesmo com resultados promissores, a análise das proteínas deve ser vista com cautela. “Nenhum exame bioquímico sozinho pode detectar a esquizofrenia”, frisa o psiquiatra Helio Elkis, do Departamento de Psiquiatria da USP e coordenador do Programa de Esquizofrenia (Projesq) do IPq. Para ele, a única forma segura de diagnóstico é a avaliação clínica com critérios internacionais bem definidos, que incluem sintomas psicóticos, como delírios e alucinações; negativos, que envolvem diminuição da afetividade, dificuldade de tomar decisões e falta de interesse; de desorganização do pensamento que torna difícil entender o que o paciente diz; de ansiedade e depressão, e distúrbios cognitivos.
Para ele, a credibilidade do trabalho de Souza é reforçada pelo diagnóstico dos pacientes cujos cérebros foram examinados, que seguiu critérios internacionais e incluiu um longo acompanhamento clínico. Mas ele ressalta que muito tem que acontecer antes que uma medição de proteínas possa ajudar no diagnóstico de um quadro psiquiá trico. “Uma vez identificados os marcadores, serão precisos testes com uma grande população para comparar os resultados moleculares aos clínicos.”
Diante de uma enfermidade com tantas dimensões, quanto mais ferramentas melhor para se elucidar seu funcionamento biológico e, quem sabe, combatê-la. Essas ferramentas podem ter origens inesperadas, como outra doença que provoque efeitos semelhantes aos da esquizofrenia. “O estudo de outras doenças que têm sintomas psicóticos pode ajudar a entender a esquizofrenia”, defende o neuropsiquiatra João Ricardo Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele estudou genes ligados à esquizofrenia há cerca de 10 anos, quando ainda cursava a graduação em medicina. Agora é especialista na doença de Fahr, na qual o acúmulo de cálcio em vários pontos do cérebro causa uma combinação variável de sintomas como parkinsonismo, tremores, dificuldades cognitivas, psicose e alterações de humor. “Quando começa com psicose, a doença de Fahr muitas vezes é tratada como esquizofrenia”, conta. Nesses casos a medicação não tem efeito e o engano só é descoberto quando a calcificação no cérebro aparece em tomografias.
Seu grupo agora estuda a genética e os padrões de calcificação da doença de Fahr e recentemente mostrou, com um par de gêmeos idênticos, o peso da genética na doença: o acúmulo de cálcio começou a surgir ao mesmo tempo e evoluiu de maneira muito semelhante, atingindo as mesmas regiões no cérebro dos dois irmãos, segundo artigo deste ano na Parkinsonism and Related Disorders. Para Oliveira, que tem amostras de cerca de 15 famílias, analisar como a composição genética e os padrões de deposição de cálcio dão origem a diferentes sintomas pode ajudar a entender a esquizofrenia e várias outras doenças.
A tarefa exige abordagens múltiplas. Enquanto comemoram resultados palpáveis, os pesquisadores veem estender-se adiante o percurso que ainda resta seguir. Para confirmar o significado das alterações observadas pelo grupo do IPq, será preciso mostrar que elas são específicas para esquizofrenia e detectar se alguma delas decorre do tratamento, e não da doença. “A especificidade dos achados só pode ser elucidada se, numpróximo estudo, compararmos cérebros de esquizofrênicos e controles sadios com um terceiro grupo, os controles psiquiátricos (por exemplo, pacientes com transtorno bipolar)”, explica Gattaz. Emmanuel Dias Neto completa: “Por anos tentamos simplificar demais. Agora é hora de olhar a coisa com a sua complexidade real,  examinando vias metabólicas, e não marcadores isolados – se estes existissem de fato, provavelmente já teriam sido identificados”.
> Artigos científicos

1. MARTINS-DE-SOUZA, D. et al. Proteomic analysis of dorsolateral prefrontal cortex indicates the involvement of cytoskeleton, oligodendrocyte, energy metabolism and new potential markers in schizophrenia. Journal of Psychiatric Research. v. 43, n. 11, p. 978-986. jul. 2009.
2. MARTINS-DE-SOUZA, D. et al. Proteome analysis of schizophrenia patients Wernicke’s area reveals na energy metabolism dysregulation.BMC Psychiatry. v. 9, n. 17. abr. 2009.
3. MARTINS-DE-SOUZA, D. et al. Prefrontal cortex shotgun proteome analysis reveals altered calcium homeostasis and immune system imbalance in schizofrenia. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience. v. 259, n. 3, p. 151-163. abr. 2009.
4. MARTINS-DE-SOUZA, D. et al. Alterations in oligodendrocyte proteins, calcium homeostasis and new potential markers in schizophrenia anterior temporal lobe are revealed by shotgun proteome analysis. Journal of Neural Transmission. v. 116, n. 3, p. 275-289. mar. 2009.
O projeto

Metabolismo de fosfolípides em doenças neuropsiquiátricas

Modalidade

Projeto Temático

Coordenador

Wagner Farid Gattaz – USP

Investimento

R$ 1.803.528,52