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21 novembro, 2009

Parlamentares que apoiaram a "luta antimanicomial" afirmam: "Nós exageramos"

Presidente da ABP reafirma “Diretrizes” no Congresso Nacional

Em evento na Câmara dos Deputados, João Alberto Carvalho apresentou a deputados e especialistas o formato de rede integrada e hierarquizada defendida pela ABP

A Associação Brasileira de Psiquiatria, representada pelo seu presidente, João Alberto Carvalho, e pelo secretário do Departamento de Dependência Química, Marco Bessa, participou no último dia 17 de novembro do seminário convocado para “Debater os Efeitos Sociais do Consumo do Álcool e a Dependência Química na Adolescência e as Políticas Públicas Implementadas”, promovido pela Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados.

Claramente estimulado por recentes episódios trágicos envolvendo jovens dependentes químicos e com o propósito de discutir exclusivamente os efeitos causados pelas drogas nessa parcela da população, o evento acabou avançando para uma discussão mais ampla sobre as políticas públicas de atendimento em saúde mental.

Essa mudança de foco foi provocada pela apresentação do presidente da ABP, que contextualizou a dificuldade da rede pública em tratar dependentes químicos dentro de um quadro generalizado de desassistência provocado pela atual política da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. “Não vamos resolver o problema da falta de assistência aos dependentes sem discutir toda a estrutura de atendimento em saúde mental”, afirmou.

João Alberto mostrou um infográfico explicativo sobre a rede preconizada pelas “Diretrizes para um modelo de assistência integral em saúde mental no Brasil” e convenceu os presentes de que, além de investimentos, falta também planejamento técnico para as ações em saúde mental. “Fiquei impressionado”, declarou o deputado e ex-ministro da Saúde Alceni Guerra.

A deputada Rita Camata, que admitiu ter apoiado e votado a favor das proposições da chamada “luta antimanicomial”, se mostrou “preocupada” com os resultados dessa orientação e elogiou a abordagem de rede proposta pela Associação Brasileira de Psiquiatria.

O presidente da ABP ressaltou que a proposta está baseada em evidências científicas e que seu funcionamento depende fundamentalmente da atuação do médico. Lembrou também que os demais profissionais de saúde são importantes para a construção do sistema multidisciplinar preconizado pela associação.

Surpresos com o conteúdo do documento, que foi distribuído em sua versão técnica, os parlamentares perguntaram se a proposta já havia sido apresentada à área de saúde do Governo. “Já entregamos a quatro ministros da saúde”, respondeu João Alberto. “Então vamos cobrar”, garantiu a deputada Elcione Barbalho, presidente da Comissão de Seguridade Social e Família.

“Considero que aproveitamos a oportunidade para expor nossas políticas e angariar apoios”, avaliou João Alberto Carvalho, lembrando que essas ocasiões são raras devido à resistência da Coordenadoria de Saúde Mental em relação às proposições da ABP e sua postura de relativização da medicina. “Apenas o fato de termos participado desse tipo de evento, onde normalmente não temos assento, já demonstrou um avanço em nossa articulação política”, finalizou o presidente da ABP.

“Nós exageramos”

Em audiência na Câmara dos Deputados, parlamentares que apoiaram “luta antimanicomial” fazem mea culpa

“Eu apoiei esse movimento e votei de acordo com suas orientações. Hoje, vendo a situação, estou preocupada”. A frase é da deputada Rita Camata e refere-se à chamada “luta antimanicomial”, que, com slogans palatáveis e exploração ideológica angariou simpatizantes em Brasília e conseguiu durante anos impor sua filosofia nas políticas públicas de assistência em saúde mental.

A deputada considera a atuação do Governo em relação às drogas “uma verdadeira demonstração de incompetência” que, segundo ela, está focada apenas na “repressão”. Camata admitiu que as políticas de saúde não estão sendo capazes de resolver o problema e que as famílias “não têm a quem recorrer”.

Outro parlamentar presente ao evento, apoiador de primeira hora da “luta antimanicomial” e incentivador da implantação de ações sugeridas pelo movimento, o deputado e ex-ministro da saúde, Alceni Guerra, também manifestou sua decepção com os resultados apresentados. “Nós exageramos”, disse ao se referir ao privilégio aos CAPs em detrimento de outras alternativas de tratamento.

“Ao ver essa rede sugerida pela ABP, estruturada e bem apresentada, acredito que temos alternativa e precisamos discutir mais o assunto”, finalizou o ex-ministro da saúde.

Fonte: ABP. 19/11/2009.

10 outubro, 2009

10 de Outubro: Dia Mundial da Saúde Mental

Problemas na assistência pública permanecem

A OMS define como saúde mental o “estado de bem-estar no qual o indivíduo consegue atingir seu próprio potencial, lidar com o estresse normal da vida, trabalhar e contribuir com sua comunidade”. No Dia Mundial da Saúde Mental, apesar de alguns avanços, o Brasil tem pouco o que comemorar. Pacientes com transtornos mentais e seus familiares ainda enfrentam cotidianamente sérias dificuldades.

A rede de serviços assistenciais para dar conta da diversidade das necessidades dos pacientes com transtornos mentais, agudos e crônicos, diferentes níveis de gravidade e de limitações, prevista na lei 10.216/2001, ainda não saiu do papel. Há grandes lacunas causadas pela inexistência de algumas modalidades de atendimento enquanto alguns dispositivos, cujo custo-benefício ainda não foi bem avaliado, continuam sendo o foco da maior parte do investimento.

Os problemas começam na atenção básica. É nítida a falta de preparo e treinamento da maior parte dos profissionais que atuam nas Unidades Básicas de Saúde e no Programa Saúde da Família. Sem conhecimento ou apoio técnico, não podem identificar os pacientes que precisam de acompanhamento especializado em saúde mental, que podem chegar a 25% das pessoas que utilizam serviços de atenção primária. Sem o diagnóstico precoce, esses pacientes procuram atendimento especializado apenas quando o problema se encontra em fase mais avançada, o que dificulta o tratamento e piora o prognóstico.

Os serviços de emergência psiquiátrica existentes, que deveriam receber os casos mais graves e agudos, descompensados, são em número insuficiente. Por falta de opção, os pacientes nesta situação e seus familiares procuram atendimento nos outros dispositivos da rede que, além de sobrecarregados, não têm estrutura para atendê-los.

A internação psiquiátrica, muitas vezes necessária para proteger o paciente em crise, com agitação psicomotora e risco de comportamento violento ou de suicídio, não pode ser oferecida a todos que precisam dela, por carência de leitos especializados.

Faltam programas de atendimento específico para grupos especiais, como crianças e adolescentes, idosos e população carcerária. Ressaltamos ainda as deficiências das diretrizes governamentais para atendimento dos dependentes de álcool e outras drogas

A esperança é de que o poder público aproveite a ocasião para uma avaliação criteriosa da saúde mental no País. Para que todos tenham o direito ao estado de bem-estar que chamamos de Saúde Mental.

Associação Brasileira de Psiquiatria

Fonte: Associação Brasileira de Psiquiatria

06 outubro, 2009

Vitória da razão: Sergipe obrigado a tratar dependentes

A decisão judicial

A Juíza de Direito Rosa Geane Nascimento Santos, da 16ª Vara Cível - Juizado da Infância e da Juventude, determinou em caráter liminar, no dia 1º de outubro, que o Estado de Sergipe arque com o custeio, na rede particular de saúde, do tratamento de crianças e adolescentes acometidos de dependência química e transtornos mentais.

O pedido à Justiça foi objeto de uma Ação Civil Pública ajuizada pela Defensoria Pública, que alegou a inexistência de programas, ações e unidades de atenção à saúde para tratamento do vício de álcool e drogas, com especial atenção ao crack, e de transtornos mentais em crianças e adolescentes, mediante regime de internação hospitalar, o que seria imprescindível, diante da grande demanda no universo infanto-juvenil com este problema em Sergipe.

De acordo com a Magistrada, a determinação se faz até que o Estado implemente o programa de serviço especializado e continuado que propicie o devido tratamento às crianças e adolescentes. Determinou ainda, o bloqueio da verba que o Estado de Sergipe utiliza para pagamento de suas campanhas publicitárias e shows, como também fixou uma multa diária no valor de R$1.000,00 (um mil reais) em caso de descumprimento, que será revertida para o Fundo Municipal da Criança e do Adolescente deste Município.

Na Ação Civil Pública consta o informe que o único tratamento encontrado para crianças e adolescentes dependentes químicos ou acometidos de transtorno mental, até o momento, são os Centros de Atenção Psicossocial - CAPS, que têm natureza extra-hospitalar ou ambulatorial. No entanto, esse tratamento é insuficiente ou incapaz de atender ao dependente químico ou e ao acometido de transtorno mental em crise.

A ação

A entrada da ação que provocou a liminar foi dada no último mês de agosto e assinada pelos defensores da 16ª e da 17ª Defensorias Públicas, especializadas em crianças e adolescentes. Nela, eles solicitaram que o Estado criasse um programa de atendimento às crianças e aos adolescentes viciados em álcool e drogas, em especial ao crack, em regime de internação hospitalar.

O defensor público, Luciano Gomes de Mello Júnior, voltou a afirmar que as crianças e adolescentes viciados em álcool e drogas estão sendo atendidos nos Centros de Atenção Psicossociais (CAPs) em regime ambulatorial, o que não é eficaz no tratamento.

“Com esta determinação, o Estado apontará qual a instituição hospitalar que poderá fazer este atendimento e as Varas farão uma avaliação de quais crianças e adolescentes necessitam deste tratamento”, explica.

O presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente, Humberto Góis, ressaltou a importância desta decisão por causa da grande demanda que Aracaju atualmente apresenta.

“Somente na 17ª Vara, 70 % dos adolescentes atendidos necessitariam de atendimento como este. O Conselho aprovou uma resolução determinando que a Prefeitura de Aracaju implementasse um programa para dependentes psicoativo e até o momento não nos foi apresentado nenhum programa”, diz ele.

A liminar é passível de recurso, mas o presidente do Conselho solicita que o Tribunal de Justiça não casse a decisão, alegando a grande demanda deste atendimento e a falta de espaço para o tratamento desses jovens.


FONTE:

  1. Jus Brasil Notícias
  2. Infonet Cidade


05 outubro, 2009

Drogas: dependentes não têm a quem recorrer


Drama das famílias que têm crianças e adolescentes dependentes químicos em Sergipe

InfoNet - SE - ESPECIAIS - 15/09/2009

Maria Tereza, 52 anos, vive o drama de não saber como tratar o filho dependente químico. Ela acredita que a internação é a solução, no entanto a família não tem condições financeiras para Justificarcolocá-lo em uma clínica particular. Tereza, assim como a maioria dos que convivem com pessoas viciadas em algum tipo de droga, não sabe quais as medidas que deve adotar com o filho. “Ele ficou agressivo, me obriga a dar dinheiro, e não quer que eu fale com ninguém sobre isso,” comentou. “Ele não quer procurar ajuda. Tenho vontade de interná-lo em um lugar que ele não saia, fique uns meses por lá,” desabafa mãe.

A defensora pública Rachel Scandian de Melo, que junto com mais três defensores, moveu uma ação contra o Estado para garantir espaços para tratamento de dependentes químicos afirma que inúmeras mães os procuram, pois não sabem para onde levar seus filhos. "Elas chegam aqui pedindo para mandar o filho para o CENAM, pois preferem os filhos internados, acreditando que assim ficarão longe do vício”, conta. Rachel explica que no hospital São José há apenas quatro leitos para receber a criança e o adolescente, e “mesmo assim, não é um espaço separado dos adultos, ou de pessoas com algum transtorno mental”.

Tereza, que mora no conjunto Rosa Maria, em São Cristovão, conta que há aproximadamente dois anos tentou levar o filho a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) , mas ele voltou para casa. “Fomos pela manhã, quando foi à tarde ele voltou e disse que não iria ficar lá, pois não precisava”, relata.

Os CAPS oferecem atendimento a esses usuários seguindo diretrizes do Ministério de Saúde. Para André Calazans, coordenador do CAPS AD, quando se pensa no cuidado do usuário de drogas o foco não pode ser apenas a droga. “É preciso entender que este sujeito nunca vai se desligar da sua família, da sua comunidade e nem das outras relações que são estabelecidas em sociedade,” afirmou André.

Mas para a defensora Rachel, o tratamento oferecido pelos Centro de Atenção Especial (CAPS) não é o suficiente para recuperar o indivíduo. “O usuário precisa de internação, não basta passar o dia no centro e mandá-lo para a casa sem a certeza de que ele vai voltar. Dos processos que eu acompanhei, 100% não tiveram resultado” comentou.

Medidas

De acordo com Ana Raquel Santiago, coordenadora da Atenção Psicossocial da Secretaria de Estado da Saúde (SES), o Governo de Sergipe já vem se reunindo com membros das secretarias municipais para construir o plano de ação sobre a temática das drogas. As medidas já trabalhadas pelo Estado incluem a ampliação do acesso aos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPS AD) e Infantil, como também, treinamento dos profissionais dessas unidades. Segundo Ana Raquel, a médio prazo, unidades hospitalares do interior também vão implantar enfermarias para o tratamento de dependentes químicos. Os hospitais de Neópolis, São Cristóvão e Lagarto são algumas unidades a terem em suas estruturas, leitos para desintoxicação.

A defensora Rachel afirma que o Estado precisa pensar de forma urgente em uma política pública que envolva a criança e o adolescente em todos os aspectos. “Tem crianças internada em clínicas psiquiátricas junto com todo tipo de pessoa. Que atenção o Estado está dando a essas crianças?”, questiona a defensora.

Como recorrer ao CAPS

Qualquer pessoa pode procurar os serviços do Centro, não precisa de encaminhamentos. O funcionamento é de segunda a sexta das 8h às 17h . O telefone de contato é o (0xx79) 3179-4620/4621.

Fonte: ABEAD

24 setembro, 2009

A luta de quem decidiu parar de fumar

Acompanhe as dificuldades e os progressos do desafio de uma fumante para abandonar o cigarro



CRISTIANE SEGATTO


Desde que a lei antifumo passou a valer no Estado de São Paulo, há um mês, muitos de seus 41 milhões de habitantes incorporaram mudanças de hábito. Tenho a impressão de que elas não têm volta. Estão se tornando costumes tão automáticos quanto colocar o cinto de segurança. Ninguém mais acende cigarro no trabalho, ninguém lança baforadas nos restaurantes, ninguém volta para casa defumado depois de parar num bar. A lei pegou. A polêmica continua.

Muita gente acha que não se deve tolerar a intromissão do Estado na vida privada. Segundo essa corrente, fumar é uma opção individual que deve ser respeitada. A lei antifumo seria apenas uma das muitas manifestações do chamado “Estado-babá”, aquele que determina normas de comportamento e sufoca o livre arbítrio. A população deveria, portanto, resistir à tentação do autoritarismo.

Outros acham que o combate ao cigarro é uma questão de saúde pública. Uma situação excepcional. Num país onde 200 mil fumantes morrem a cada ano e outros 2,6 mil óbitos são atribuídos ao fumo passivo, a medida seria necessária. Para essa corrente, a decisão do Estado transcende o debate sobre o direito individual. Ela diz respeito aos custos sociais e econômicos que são repartidos por toda a sociedade – e não apenas pelos fumantes.

Essa é uma daquelas boas discussões porque há ideias defensáveis dos dois lados. A minha opinião está formada há muito tempo. Acho que o Estado tem obrigação de tomar uma atitude quando o produto em questão é uma droga poderosa. O cigarro contém 4,7 mil substâncias que fazem mal ao organismo. Causa dependência química e psicológica. Vicia tanto quanto a cocaína.

Se a cocaína é proibida, por que o cigarro é vendido livremente? Quem usa cocaína se acaba sozinho. Quem fuma estraga a saúde de quem está por perto. Por que as autoridades deveriam proteger a liberdade dos fumantes e ignorar a dos não-fumantes?

A lei antifumo paulista não proíbe o cigarro. Quem quiser continuar fumando pode fazer isso nos locais abertos, nas tabacarias ou em casa. Ao proibir o fumo em lugares fechados, no entanto, a lei protege os não-fumantes, uma massa de milhões de pessoas que até recentemente fumava por tabela.

Um dos efeitos mais interessantes dessa lei é o incentivo à reeducação. Muitos fumantes que, num primeiro momento, reclamavam da proibição foram incentivados pela lei a procurar tratamento. Esse fenômeno foi verificado em vários países europeus que adotaram medidas semelhantes.

Uma pesquisa realizada com 550 fumantes pela Sapienza University, em Roma, dá uma amostra desse processo. “A proibição do fumo em lugares fechados motiva os pacientes a parar de fumar e aumenta a eficácia dos tratamentos”, escreveu a pesquisadora Caterina Grassi num artigo publicado na edição deste mês do periódico científico Nicotine & Tobacco Research.

Conheço vários fumantes que estão nessa batalha. A vida deles não está fácil. As clínicas particulares cobram caro. Os serviços de saúde que oferecem atendimento gratuito têm poucas vagas. Na quarta-feira, visitei o principal serviço público da capital, que fica no Bom Retiro, na região central.

É o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), da Secretaria Estadual de Saúde. Em quatro sessões (uma por semana) os pacientes recebem acompanhamento médico, psicológico e nutricional. Contam também com enfermeiras e assistente social.
“Depois da lei, a procura aumentou 50%”, diz Stella Regina Martins, coordenadora do programa de atenção ao tabagista do Cratod. “Mas conseguimos chamar os interessados em menos de dois meses”, afirma.

Os pacientes são tratados com goma de mascar e adesivo de nicotina e, em alguns casos, antidepressivos. O chiclete e o adesivo repõem no organismo a nicotina da qual os fumantes são dependentes. É uma forma de evitar a síndrome de abstinência que pode arruinar o tratamento.

A lógica por trás disso é a redução de danos. O paciente continua recebendo nicotina, mas não se intoxica com os outros milhares de substâncias nocivas. Se a equipe identifica depressão associada ao tabagismo, o paciente recebe o remédio bupropriona.

O fumante faz um acordo com a equipe profissional, logo no primeiro contato. O combinado é que ele pare de fumar de uma vez. Bruscamente. Sem prazo de adaptação. “Digo que ele tem duas opções: parar de fumar hoje ou amanhã”, diz Stella.

Estranhei essa abordagem. Fiquei me perguntando quantas pessoas conseguem parar dessa forma. “Depois das quatro sessões, cerca de 40% param de fumar”, diz Stella.

Acompanhei a reunião do grupo que começou o tratamento há duas semanas. Dezoito pessoas (a maioria, mulheres) compareceram à terceira das quatro sessões. Onze já estavam sem fumar. Sete não haviam conseguido parar. As justificativas:
“Todo mundo viajou. Fiquei sozinha, nervosa. Eu me senti perdida e acendi o cigarro”
“Meu marido fuma. No meu trabalho, três pessoas fumam. Não dá para ficar longe do cigarro”
“Moro sozinha. Quando sinto solidão, fumo”
“Nem sei qual é a minha dificuldade. Tiro o adesivo para dormir. Quando acordo, estou com uma fissura danada. Preciso fumar antes de ir trabalhar”
“Fiquei distraída e, quando percebi, já tinha acendido o cigarro”
“Sinto uma ansiedade terrível. Não consigo dormir à noite. A ansiedade me leva ao cigarro”

PERFUME X CIGARRO

Ana Rita diz que adora perfumes, mas o cheiro se confunde com o do cigarro, o que lhe rendeu o apelido de 'cheirosa fedida' no trabalho
Nesse grupo, conheci a funcionária pública Ana Rita Conde Lopes Guida, de 56 anos. É uma das pessoas que a lei antifumo conseguiu arrastar para o tratamento. Começou a fumar quando tinha 11 anos. Nunca parou. Nunca tentou.

Decidiu parar de fumar agora porque a lei dificultou o acesso dela ao cigarro. Ana trabalha no departamento de perícias médicas da Secretaria Estadual de Gestão Pública. Para conseguir fumar, precisa subir uma ladeira e, muitas vezes, ficar encolhida embaixo de chuva.

Ainda não conseguiu parar, mas reduziu. Fumava trinta cigarros por dia. Diz que agora fuma seis. Adora perfumes, mas o cheiro do cigarro confunde o olfato de quem passa por ela. “No meu trabalho, os médicos dizem que sou a cheirosa fedida”, afirma. Eles a inscreveram no Cratod e estão na torcida. Ana sofre de bronquite, asma e dificuldades vasculares. Está assustada com sinais de trombose no braço direito.

As recaídas de Ana parecem ter forte ligação com sua condição psicológica. Ela não tem filhos. Ficou solteira até os 46 anos. Em 1999, casou-se com um homem 32 anos mais velho. No ano seguinte, ele teve câncer. Depois veio um AVC. Ana virou mulher, irmã, enfermeira. Na semana passada, o marido de 88 anos quebrou o pulso.

Ana errou o caminho do hospital, mas conseguiu levá-lo até lá. “Ele virou um bicho comigo”, diz. “Fiquei tão nervosa que, quando voltei para casa, arranquei o adesivo de nicotina e fumei”, afirma.

Quebrar essa associação – a idéia de que o cigarro ameniza o sofrimento emocional – é um dos maiores desafios dos fumantes.

Nas próximas semanas, contaremos os progressos e as dificuldades que Ana vêm enfrentando. Quem quiser incentivá-la ou saber como passou a semana tem um encontro marcado com ela todos os sábados, nesta coluna.

Há muitos argumentos racionais contra o fumo. Um deles é a queima de parte do orçamento familiar. Se você quiser saber quanto gasta com cigarros durante um ano, divirta-se com a calculadora abaixo, que encontrei num material preparado pela empresa Pfizer.

Fonte: Revista Época. Em 13/9/2009.


16 setembro, 2009

Relato de um dependente químico: sobre o quê é preciso refletir?


Após 10 meses afastado, para tratar-se de dependência química o ator Fábio Assunção volta a gravar para TV.


Em uma atitude corajosa de quem demonstra que realmente esteve em tratamento para dependência química e como tal já se reconhece doente, o ator fez afirmativas e negativas que bem ilustram esta doença tão comum: a dependência.

Entretanto, é inevitável ao tempo em que ouvimos o relato do Fábio pensarmos nos inúmeros brasileiros, e outros cidadãos de países em desenvolvimento, que não têm a oportunidade de obter tratamento psiquiátrico adequado para a dependência química, sendo privados do direito de optarem de fato por ficarem ou não internados em ambientes fechados seguidos da internação em regime semi-aberto.

O SUS em suas políticas, redundantemente cheias de políticas, não contempla estas opções, aliás, mal contempla o tratamento ambulatorial para os dependentes, e abordagens simples como a suspensão programada da substância psicoativa seguida da prevenção de abstinência são uma raridade em nosso meio.

Na verdade, a rotina tem sido assistirmos inertes o infame trocadilho da "adição de crianças" ao grupo de dependentes, as mesmas crianças que ainda não tratamos sequer para TDAH, nem ainda protegemos do abuso infantil, mas que já estão adoecendo de transtornos mentais anteriormente aceitáveis comente entre adolescentes de risco.





24 agosto, 2009

Ela não queria que a filha "salvasse o mundo"



FRUSTRAÇÃO
Heloísa segura um cartaz com fotos que relembram a filha, Jacqueline. Para ela, o destino da filha teria sido outro se ela tivesse conseguido ser internada
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Por Marcela Buscato

As tentativas de uma mãe para internar a filha adolescente, que tinha transtorno bipolar e comportamento suicida, mostram como a redução de leitos psiquiátricos deixou muitos brasileiros sem assistência


A pedagoga Heloísa Bergamo tinha em mãos duas cartas de psiquiatras pedindo a internação de sua filha, Jacqueline, de 14 anos. Era outubro de 2005 e durante quatro dias Heloísa percorrera hospitais de São Paulo em busca de uma vaga. Havia quase um ano e meio que ela espreitava 24 horas por dia os pensamentos da filha. Na medida em que isso é possível – e em que só as mães são capazes. Em junho de 2004, a menina alegre, cheia de amigos e que estava aprendendo a tocar viola e pandeiro começara a mudar de comportamento. Tornou-se fechada. Não queria mais ir à escola. Dizia que ninguém gostava dela. Eram os primeiros sintomas do transtorno bipolar, um distúrbio psiquiátrico em que a pessoa alterna momentos de euforia ou irritação com depressão profunda. É durante essas variações de humor, causadas por um desequilíbrio na química cerebral, que até 30% dos doentes tentam tirar a própria vida. Metade acaba conseguindo.

Heloísa sabotara todos os planos de Jacque de “salvar o mundo”. Era essa frase que a adolescente repetia quando mais uma crise começava, em uma lógica que talvez nem ela mesma entendesse. Heloísa impedira as tentativas de Jacque de saltar do carro em movimento. Seu lugar era no banco da frente, ao lado da mãe, que dirigia vigiando o fecho do cinto de segurança. Interceptara as incontáveis corridas da filha de sua casa, no centro de São Paulo, em direção à Avenida Nove de Julho, uma das mais movimentadas da cidade. Nos carros e ônibus que passam em alta velocidade, Jacque via uma oportunidade de “salvação”. No apartamento recém-alugado pela família, o encanto de Jacque - como aquele dos marujos pelas sereias, explica a mãe - era pelas janelas. As redes de proteção, cuidadosamente instaladas nas janelas do apartamento no quinto andar, eram para Jacque a cera que o herói da mitologia grega Odisseu colocou nos ouvidos para não sucumbir aos encantos das sereias.


SAIBA MAIS
A internação era a última alternativa para impedir que Jacque “salvasse o mundo”. Heloísa já não conseguia conter a filha fisicamente. Jacque estava crescendo. Heloísa, enfraquecendo, esgotada com a dedicação integral à filha. Acumulava sozinha a administração de sua escola infantil e os cuidados com as filhas, Jacque e Aline, de 15 anos. Não contava com a ajuda diária do ex-marido nem da mãe, paralisada por um acidente vascular, e do pai, que sofre com um enfisema pulmonar. Os dias de trabalho eram precedidos por noites sem dormir, tentando impedir que a filha fugisse, arranhasse o rosto, se ferisse com um garfo, uma caneta ou que estivesse à mão.

A médica que atendia Jacque havia mais de um ano no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo pediu sua internação. Não adiantou. Na carta de 18 de outubro de 2005, dirigida a outro médico que viesse a atender Jacque, a explicação. “Optamos por interná-la, porém, sem vaga”. Heloísa saiu do hospital com a carta em uma mão, segurando a filha com a outra e sem saber para onde ir. “Com minha filha se debatendo e querendo fugir, como eu poderia ficar perambulando de hospital em hospital à procura de internação?”. A solução foi retornar para casa. E voltar no dia seguinte, quando tampouco havia vagas.

Segundo uma informação divulgada esta semana pelo hospital, ainda levaria alguns meses até que elas surgissem. Em outubro de 2005, todos os leitos da psiquiatria infantil do Hospital das Clínicas estavam desativados porque a unidade estava em reforma. Hoje, são dez em funcionamento, ocupados 98% do tempo, e que continuam sendo um dos poucos em São Paulo reservados para crianças e adolescentes com alguma doença psiquiátrica. Na época, a assistente social do hospital garantiu que Jacque estava na fila, esperando um leito psiquiátrico vagar em algum hospital público de São Paulo.

Heloísa sabia que não podia esperar. Foi para um pronto-atendimento de psiquiatria, que estava incluído na cobertura de seu plano de saúde. Era para lá que levava a filha sempre que ela tinha uma crise nos finais de semana. Jacque recebia mais medicamento, acalmava e voltava para casa.“Era sempre um jogo de empurra: o Hospital das Clínicas dizia que era para levar a Jacque em caso de emergência para esse pronto-atendimento. Nesse lugar, davam mais remédios e mandavam antecipar a consulta semanal no Hospital das Clínicas.” Desta vez, à procura de internação, Heloísa descobriu que o pronto-atendimento não contava com leitos para crianças. Levou Jacque para o pronto-socorro de outro hospital. O psiquiatra aplicou sedativos em Jacque e a mandou embora para casa. “É isso o que eles fazem. A pessoa se acalma e eles mandam embora para casa. Mas e quando o efeito do remédio acabar?.” No prontuário de Jacque, o médico escreveu “risco de suicídio”, recomendou internação e deu alta. Cansada, Heloísa levou Jacque para casa.

No dia seguinte, o segundo depois de a médica indicar internação, Heloísa voltou com a filha ao Hospital das Clínicas. Recebeu a recomendação de interná-la provisoriamente em um pronto-socorro, mantido pela Prefeitura de São Paulo, até que surgisse uma vaga. Foi para lá. “Eu nunca deixaria a minha filha naquele lugar. Ela tinha de ficar sentada em uma cadeira. Os remédios dela o padrinho foi buscar em casa porque lá não tinha. Era uma enfermeira cuidando de homens e mulheres, todos misturados.” Heloísa decidiu levar Jacque para casa e ficar aguardando o telefonema que avisaria sobre a vaga.

Jacque amanheceu tranquila no dia seguinte, o terceiro na busca de Heloísa por internação. “Eu não sabia que o perigo é quando eles se acalmam”, diz Heloísa. “Sem aquele turbilhão de emoções da crise, conseguem colocar seus planos em prática.” Heloísa avisou na escola que não iria mais trabalhar. Ficaria em casa, de plantão, até receber a ligação que avisaria sobre a vaga. Passou o dia arrumando o apartamento, para onde tinha se mudado há seis dias. Ela morava com as duas filhas em um anexo de sua escola infantil, e achava que lá Jacque não tinha sossego para descansar. Também temia que a filha tentasse “salvar o mundo” na frente dos alunos, crianças com no máximo seis anos de idade.

No fim da tarde, Jacque aceitou o convite da irmã para curtir a piscina do prédio. Heloísa, sem avistar nenhum perigo no térreo do edifício, deixou as duas na piscina e saiu para comprar alguns itens que precisava na vizinhança. Quando estava voltando para casa, viu uma manicure e resolveu fazer as unhas. Mal se sentou e carros de resgate passaram pela rua, com as sirenes ligadas. Decidiu acreditar que não podia ser em sua casa. Mas só até o telefone tocar. Aline, sua filha mais velha, avisava que Jacque pedira para voltar ao apartamento para dormir. Enquanto a irmã assistia à televisão, vigiando a porta do quarto, Jacque conseguira passar para o banheiro e trancar a porta por dentro. Aproveitou-se da única janela em que a empresa de telas de proteção não instalara uma rede: aquelas basculantes, bem pequenas, típicas de banheiro. Jogou-se. Jacque sofreu múltiplas fraturas pelo corpo e na cabeça. Foi operada, ficou dois dias em coma. Deu por cumprida sua missão de “salvar o mundo” no meio da tarde do domingo, 23 de outubro de 2005.


Heloísa tenta retomar a vida
“Você vai escrever que eu estava fazendo a unha”, pergunta Heloísa. “Parece o cúmulo da irresponsabilidade.” Talvez para alguém que não consiga se colocar no lugar de uma mãe que colocou a própria vida em segundo plano para cuidar da filha. Mas a maioria das pessoas subentende na pergunta de Heloísa a culpa com a qual ela terá de conviver. Mesmo sem ter nenhuma. “Depois da morte da Jacque fiquei sem viver dois anos. Entrei em depressão, só dormia, descuidei do meu trabalho. Quem tocava a escola eram as minhas funcionárias. Ainda estou tentando retomar a minha vida. Mas não tenho concentração nem capacidade criativa.”

A irmã de Jacque, Aline, também sofreu com a doença da irmã. Ela tinha 14 anos na época em que os primeiros sintomas de Jacque começaram a aparecer. Ressentia-se da atenção excessiva que a mãe dedicava à irmã. Chegou a tomar um punhado dos remédios de Jacque de uma só vez para tentar se matar. A combinação de remédios a deixou dopada por algumas horas. “Ela dizia que era melhor morrer do que viver daquele jeito”, diz Heloísa, que decidiu mandar Aline para a casa de uma amiga em Itatiba, cidade a 80 quilômetros de São Paulo. Aline passou todo o segundo semestre de 2004 no interior, estudando em uma escola local. Eram raros os finais de semana em que Heloísa conseguia visitá-la. Viajar com Jacque era um risco: ela tentava abrir a porta e se jogar do carro em movimento. “A doença acabou separando a família.”

Hoje, Heloísa mora em uma casa, na mesma rua onde fica sua escola. De lá consegue avistar o prédio de onde Jacque se jogou. Está processando o governo do Estado de São Paulo pela falta de leitos psiquiátricos. “Tenho certeza de que Jacque não teria conseguido se matar se tivéssemos encontrado uma vaga”, afirma Heloísa. “Quem sabe ela teria uma chance de aprender a conviver com sua doença.”

Publicado em 30/05/2009 às 12:58. Revista Época.

15 julho, 2009

APELO AOS SENHORES MÉDICOS PSIQUIATRAS


Rio de Janeiro, 13 de junho de 2009

 
APELO AOS SENHORES MÉDICOS PSIQUIATRAS
 
 
A AFDM BRASIL, em nome de milhares de familiares de doentes mentais, vem apelar aos ilustres médicos que se pronunciem frente à OPINIÃO "NA CONTRAMÃO" do importante jornal “O GLOBO” (veja em anexo), publicada na edição de 13.06 do corrente ano.

 
Não há duvida, está ocorrendo no País um perverso e criminoso excesso de mortalidade de doentes mentais correlacionado à política oficial de saúde mental do Ministério da Saúde, conforme bem demonstrado em estudo científico, baseado nos dados oficiais da DATASUS, apresentado no SEMINÁRIO SAÚDE MENTAL, POLÍTICA E MÍDIA ocorrido, nos dias 5 e 6 dezembro de 2008, na cidade do Rio de Janeiro.

 
Neste evento aprovou-se a CARTA DO RIO DE JANEIRO (veja abaixo) e divulgou-se o Apelo ao Presidente Lula (veja abaixo) que, entre outras denúncias, busca a punição dos responsáveis pelo genocídio de doentes mentais no Brasil

 
Saudações
 
Marival Severino da Costa
Presidente da AFDM BRASIL

 

 

 
CARTA DO RIO DE JANEIRO
SEMINÁRIO DE SAÚDE MENTAL, POLÍTICA E MÍDIA
05 E 06 DE DEZEMBRO DE 2008
 
 
Os amigos, familiares e doentes mentais do Brasil e da Itália e os profissionais de saúde mental reunidos na cidade do Rio de Janeiro, considerando que o modelo assistencial dos dois países - Brasil e Itália - provocou um absurdo excesso de mortalidade por transtornos mentais e comportamentais (doenças psíquicas), bem como, um gritante número de doentes mentais nas ruas e nas cadeias, aprovaram:

 

Lutar pela mudança da política oficial no Brasil fazendo cumprir a Lei 10216/01 e pela substituição da Lei 180 de 1978 na Itália, solicitando apoio de organismos nacionais e internacionais.

 

Constituir a Associação Mundial de Amigos, Familiares e Doentes Mentais.

 

Apoiar a difusão do “APELO AO PRESIDENTE LULA” apresentado pelo Senhor Mario Comuzzi, familiar e morador em Trieste/Itália.

 

Preconizar que o modelo assistencial preventivo e curativo em Psiquiatria deve respeitar a Declaração Universal de Direitos Humanos que completará 60 anos em 10 de dezembro de 2008.

 

Responsabilizar os dirigentes que implementaram a política GENOCIDA perante os Tribunais Nacionais e Internacionais.

 

Encaminhar a CARTA DO RIO DE JANEIRO aos órgãos nacionais e internacionais de defesa dos direitos Humanos, aos conselhos profissionais e demais entidades envolvidas e interessadas nas questões dos doentes mentais.

 

Respeitar o Prêmio Vladimir Herzog pela notória competência e seriedade dos membros de sua Comissão Julgadora, solicitando o apoio da Associação Brasileira de Imprensa e demais organizações nacionais e internacionais que congregam jornalistas e as empresas de comunicação, visando a divulgação dos direitos aqui reivindicados.

 
   
Rio de Janeiro, 06 de dezembro de 2008
 
 

APELO AO PRESIDENTE LULA
 
 
Presidente Lula,
 
Sua pessoa exprime confiança, se vê uma figura paterna, inspira simpatia. Tenho em comum com você uma longa experiência como operário, de bombeiro e mecânico em navios, trabalhei por 52 anos. Deixe que lhe faça este apelo.

 
A Itália teve a tristeza de, há 30 anos, fazer uma lei sobre a saúde que não possuía nenhuma base, nenhuma justificação científica. Tratava da saúde das pessoas mais frágeis, mais vulneráveis, que tem maior necessidade de assistência, os doentes mentais. Foram reenviados a casa como encomenda postais, fecharam as portas as suas costas, condenando-lhes a viverem nas ruas. Dezenas de milhares de famílias foram transformadas em manicômios criando situações terríveis que em uma família não é possível se conviver.

 
Esta lei irresponsável ocasionou um massacre avaliado em cerca de 30 mil mortes. Os profetas desta lei declaram que a doença mental não existe: pela primeira vez na história uma doença foi vencida por um decreto de lei. Diziam que os psiquiatras eram inúteis e iriam desaparecer em vez disso, são mais numerosos que em qualquer período, e os doentes aumentaram enormemente porque não são tratados na fase inicial e condenados a cronicidade. São falsos profetas. Fingem certa inclinação política, mas simplesmente para haverem total proteção. São médicos incompetentes: são responsáveis pelas mortes de tantos jovens.

 
Presidente, estes indivíduos são mentirosos: usam e fazem usar o slogan contra o manicômio, criam os seus próprios manicômios escondidos na cidade, que escapam de qualquer controle, custodiados por pessoas, privadas de qualquer preparação, onde acontece de tudo.

 
Eu denuncio o seqüestro e contenção química que existe na cidade de Trieste, onde esta terrível infecção se iniciou. Todos os campos da Medicina cumprimentam alegremente os maravilhosos progressos que vêm da pesquisa científica. No campo dos distúrbios mentais estamos encontrando tratamentos sempre mais eficazes.

 
Porque a estes doentes deve ser negada a assistência de profissionais especializados, e serem confiados a dogmáticas políticas que discutem eternamente sobre os livros sacros dos anos sessenta?

 
Presidente, uma lei delirante na Itália favoreceu a consolidação de uma casta intocável, que gerou corrupção e abuso de poder, infinitos sofrimentos e tanta dor.
 
Não permita que isto aconteça no seu grande e maravilhoso País.
 
Rio de Janeiro, 05 de dezembro de 2008
 
Mario Comuzzi
PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE AMIGOS, FAMILIARES E DOENTES MENTAIS









12 julho, 2009

Antipsiquiatria - Noções

É preciso conhecer todas as correntes que norteiam o pensamento atual, principalmente porque algumas, por mais absurdas que nos pareçam influenciaram e influenciam à Reforma da Assistência Psiquiátrica em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Para nós que gerenciamos a UIPHU-UFS a Antipsiquiatria é um destes absurdos.

Glaise Franco.

A Antipsiquiatria surgiu nos anos 60, a partir da contracultura que permeava a sociedade ocidental. Na Itália, seu maior expoente foi Franco Basaglia,  

A Antipsiquiatria apresentava diversos postulados, dentre outros, o de que não deveria haver hospitais psiquiátricos, ou leitos psiquiátricos, internação psiquiátrica.

Para esta corrente a doença mental era uma manifestação legítima do ser humano enquanto tal, e portanto, não merecia a apropriação do discurso médico, do discurso Psiquiátrico de impor-lhe tratamentos, mas cabia à sociedade apenas aceitar e aprender a conviver com o diferente, isto é, com a doença mental, em quaisquer de suas manifestações.

Na verdade, para Basaglia, não havia doença nem doentes, vez que a doença seria um conceito pertinente ao discurso médico, haveria apenas pessoas diferentes, com comportamentos diversos. Pessoas que não se encaixavam no "discurso de normalidade da maioria".

A Antipsiquiatria nega veementemente a doença mental.

30 junho, 2009

Por que elas estão bebendo tanto?

Revista Galileu. Maio de 2009.


Nunca os balcões de bar e as reuniões dos Alcoólicos Anônimos receberam tantas mulheres; o que está por trás dessa sede toda?

Por Juliana Tiraboschi



"Muito esporadicamente", a jornalista Ivelise Cardo, 48 anos, gosta de tomar uma cervejinha. E "uma", no caso, não é apenas força de expressão, mas determina a quantidade, o teto: uma latinha e mais nada. Ela nunca chegou a ser dependente, mas considera que abusava do álcool , pois o que era hábito virou uma compulsão para o consumo quase diário. "Comecei a perceber meus motivos. Eu bebia porque todo mundo ia para o bar depois do trabalho, para relaxar", diz. Em 2004, ela procurou a Unidade de Pesquisa de Álcool e Drogas (Uniad), em São Paulo. Não para pedir ajuda para si, mas para incentivar uma amiga alcoólatra a se tratar. A colega nunca apareceu, mas Ivelise passou a frequentar reuniões semanais exclusivamente femininas, durante cerca de um ano. Depois desse período, ela se mudou para Santos, no litoral sul de São Paulo, e sabe que não pode deixar a guarda baixa. O máximo que se permite é, eventualmente, substituir a latinha de cerveja por uma taça de vinho. Uma só.

Longe de ser exceção, a história de Ivelise exemplifica uma tendência. Segundo dados do Ministério da Saúde em 27 cidades brasileiras, o uso abusivo de álcool (mais de quatro doses para mulheres e mais de cinco para homens numa mesma ocasião) tem se mantido igual entre eles, mas está aumentando no caso delas. Segundo o grupo de ajuda Alcoólicos Anônimos, há 15 anos a frequência era de uma mulher para cada seis homens atrás de ajuda. Hoje, são pelo menos três mulheres para cada seis homens, entre um milhão de pessoas atendidas pelo programa atualmente.

Segundo o AA, nos últimos 15 anos, o número de mulheres alcoólatras no Brasil passou de uma para cada seis homens para três a cada seis

 

E essa tendência não conhece fronteiras. Richard Grucza, da Escola de Medicina da Universidade de Washington, cruzou os dados de duas grandes pesquisas epidemiológicas realizadas nos Estados Unidos com um intervalo de dez anos entre elas, 1991-1992 e 2001-2002. A conclusão foi que mulheres nascidas após 1954 têm 1,5 mais chance de desenvolver dependência de álcool do que suas antecessoras, reflexo do "aumento substancial no hábito de beber das mulheres", afirma Grucza.

Elas começam cedo. Em uma comunidade do Orkut dedicada ao tema, um tópico no fórum perguntava quando havia sido o primeiro porre das participantes. Em geral, as garotas que responderam disseram que a iniciação se deu entre 11 e 15 anos. Uma delas considerava que começou tarde, "com 17". Estudiosos apontam uma série de motivos para que elas passassem a frequentar mais os bares desde meados da década de 1940, com o fim da Segunda Guerra Mundial. Um deles é que beber se tornou socialmente mais aceitável. A ex-dependente MG*, 61 anos, concorda. "O álcool é uma droga tão natural que quem não bebe é olhado de soslaio, as pessoas perguntam por que não está tomando", diz. Abstêmia há dois anos e meio, ela conseguiu livrar-se do vício e das constantes tremedeiras, queda de cabelo, diarréias e vômitos com terapia e remédios, mas considera-se em eterna recuperação. Na sua casa não entra álcool nem na forma de produtos de limpeza.

A fatia de homens de 18 a 44 anos que abusam da bebida se manteve em 30% entre 2006 e 2008. Entre as mulheres, cresceu de 10% para 12% no período

Além dos bares, escritórios e universidades também passaram a receber mais público feminino. Mais endinheiradas e educadas, elas tornaram-se protagonistas de cenas impensáveis décadas atrás, como um grupo de amigas desacompanhadas em um bar. Um desses grupos é formado por Marina, 27 anos, Raquel e C.*, ambas com 28. Todas são solteiras, têm diploma universitário, trabalham e gostam de sair de duas a três vezes por semana em São Paulo. Calculam que tomam de 6 a 10 copos de cerveja por encontro. "E mais uma dose de cachaça compartilhada", afirma Raquel. Para elas, a bebida é um meio de confraternização e relaxamento. Mas também pode ser uma válvula de escape. "Todo mundo tem a necessidade de fugir da realidade e de suprir carências", diz Raquel. Na visão dela, uns fazem isso por meio do álcool. Outros fazem compras compulsivamente ou assistem televisão.

Apesar de Marina afirmar que sua família acha que bebe excessivamente, ela acredita que possui uma tolerância aos efeitos do álcool maior que a média. "Algumas pessoas dizem que eu bebo 'como homem'." Para C., porém, um sinal de alerta mantém-se aceso. "Tem a preocupação com a saúde, mas tem mais a ver com usar o álcool para camuflar algo que está incomodando, tipo excesso de trabalho." Por outro lado, ter de cumprir as tarefas no escritório no dia seguinte faz a publicitária maneirar nos tragos noturnos.

ÚLTIMO GOLE
A maioria usa o advérbio "socialmente" para qualificar a convivência com os copos. E isso dificulta o diagnóstico do problema e as razões por trás dele. Umas bebem para esquecer o estresse, para acompanhar os amigos ou para se enturmar em eventos socioprofissionais. Outras encontram no hábito um alívio para problemas no casamento, nas relações com os filhos ou conflitos no trabalho. Os homens também bebem por essas razões, mas a relação delas com o álcool tem peculiaridades que preocupam os especialistas.

A começar por diferenças corporais. Segundo Márcia Fonsi, enfermeira e pesquisadora da Uniad, as mulheres possuem mais gordura corporal e em geral são mais baixas do que os homens, portanto, têm menos água. Por conta disso, o álcool é retido durante mais tempo no organismo e em uma concentração maior. O metabolismo feminino também demora mais para eliminar a bebida, e elas ainda estão sujeitas às oscilações de humor ligadas ao ciclo menstrual. Essas diferenças tornam a mulher mais suscetível a desenvolver dependência ou sofrer com pancreatites ou cirrose.

O número de mulheres que procuraram tratamento para dependência de álcool no Estado de São Paulo cresceu 78% entre 2004 e 2006, de 17.816 para 31.674

Segundo a psiquiatra Luizemir Lago, diretora do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (Cratod), as mulheres resistem mais do que os homens a buscar ajuda. "Pode ser pelo estigma com que a sociedade olha para as pessoas que sofrem com essa doença", diz. Mas isso está mudando. Nos últimos anos, cresceu 78% o número de pessoas do sexo feminino que procuraram o centro. O tratamento envolve terapia em grupo e individual e prescrição de medicamentos quando necessário. A médica atribui a porcentagem principalmente ao crescimento de oferta de atendimento público, realizado nos 43 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) paulistas. Também observa uma mudança comportamental. "Antes a mulher era trazida por alguém, agora ela mesma nos procura."

Na Uniad, que está com os grupos de ajuda suspensos, entre 2000 e 2006 o número de homens que buscou tratamento caiu de 155 para 59. Entre as mulheres, esse número subiu um pouco, de 24 para 29. O curioso é que, nos anos de 2002 e 2003 o número de pacientes femininas foi maior: 44 e 42, respectivamente. O que esses dois anos têm em comum? Duas novelas da Rede Globo exibidas nos períodos mostraram personagens que enfrentavam o alcoolismo. Em Por Amor, produção de 1997 reprisada em 2002, era Orestes (Paulo José) quem comovia as telespectadoras. Já em Mulheres Apaixonadas, de 2003, era a professora Santana (Vera Holtz) quem vivia o drama da dependência. "A novela ajuda muito na divulgação", diz a enfermeira Márcia Fonsi.

COMER E BEBER
Há outra peculiaridade no alcoolismo feminino: a relação entre a dependência de substâncias psicoativas, entre elas o álcool, e transtornos alimentares. "Muitas pacientes conseguem ficar abstinentes, mas se sentem esvaziadas e acabam encontrando uma saída na comida, que está mais disponível e mais perto da pessoa", diz a psicóloga Silvia Brasiliano, coordenadora geral e executiva do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud). A ligação é conturbada, e os alvos da compulsão podem se alternar. "Eu costumo brincar que as mulheres podem ser bêbadas, deprimidas, caídas, mas gordas jamais. Se ela parou de beber e engordou, vai voltar a beber." Há até um termo leigo para definir o comportamento que combina a restrição alimentar ao abuso de álcool: "drunkorexia", união dos termos "drunk" (embriagar) e "anorexia", que significa se privar de comida para beber sem se preocupar com as calorias das bebidas. Segundo a psicóloga, a drunkorexia "clássica" não é comum entre as pacientes do Promud. Mas a dependência alcoólica concomitante a problemas alimentares é bem mais freqüente: mais de 50% delas têm distúrbios como anorexia nervosa, bulimia ou transtorno do comer compulsivo. Por isso, o ideal é tratar tudo junto. 

Existem opiniões distintas em relação ao que seria um padrão de consumo seguro de álcool, mas o de Ivelise Cardo, aquela moça que toma somente um copo e de vez em quando, está mais do que dentro do que é considerado saudável por grande parte dos médicos. Um estudo do Centro para Pesquisa e Educação de Alta Tecnologia em Ciências Biomédicas da Universidade Católica, na Itália, afirmou que a mortalidade das adeptas do copo é reduzida ao se consumir no máximo uma dose diária de álcool (10 a 12 gramas de etanol). Isso equivale a uma taça de vinho de 100 a 120 ml, um copo de cerveja de 300 ml ou de 30 ml de destilado.

"Uma mulher que bebe uma dose por dia, de preferência durante as refeições, tem de 10 a 20% de redução de risco de morte se comparada com uma abstêmia", diz o pesquisador Augusto Di Castelnuovo. A partir daí, porém, o cenário muda. Ingerir de três a cinco doses por dia aumenta em 41% o risco de desenvolver câncer de mama ou ovário. Beber com frequência, mesmo moderadamente, pode provocar lesões no fígado.

É muita coisa a ser ponderada. Mas, como sempre, o bom senso é fundamental para quem não quer transpor a linha que separa o grupo animado do bar daquele das terapias coletivas.

"QUANDO ACORDEI ENTRE MENDIGOS, VI QUE ERA HORA DE PARAR"
A Escritora KN, 36 anos, relata o seu mergulho no mundo da compulsão por bebida, drogas e comida

"Comecei com 13 anos e, de lá pra cá, já fiquei inconsciente várias vezes e até entrei em coma. Passei um tempo morando com o meu pai, que não tinha nada para beber em casa. Na primeira oportunidade, saí, bebi e acordei na casa de estranhos.

Fui internada. Já estava bebendo todos os dias. Começava com um conhaque com Coca-Cola. Quando ia ver, já tinha tomado uma garrafa. Ia sozinha ao bar, saía de casa para beber. Tive uma recaída leve há nove meses. Atualmente, eu até evito pensar em bebida. Quando isso acontece, tudo volta: vergonha, derrota, ojeriza... O meu fundo de poço foi quando acordei debaixo de uma biblioteca, perto de mendigos. De um lado, tinha um cachorro. De outro, um homem estranho. Era o fim.

Eu era duas pessoas. Uma séria e outra desinibida, que bebia, que facilitava, que dançava. Um dia, num site de sexo, eu criei a Kris, uma personagem que tem compulsão sexual. Foi difícil reconhecer que no site sou um objeto, não uma pessoa. A Kris tinha que beber para transar. E a doutora me disse que, 'se você precisar beber para fazer sexo, não faça'. Isso bateu forte.

Durante um ano, eu tava fora das drogas, mas escondida no sexo. Percebo uma relação entre os problemas, as dependências vão mudando. Vou substituindo uma compulsão por outra. Eu pensava: 'Quando não tiver sexo, o que virá no lugar?'. Eu não quero mais dar nenhum vexame para mim mesma, porque não agüento mais. Sentia uma agonia, até que resolvi fazer alguma coisa.

Em 2003, quando estava com 107 quilos, fiz um regime e cheguei aos 90, fui beber para comemorar. Tenho vontade de me entupir de comida, mas sei que não posso. Sofro com o efeito sanfona. Estava com 120 quilos em outubro, estou com 102 agora. Quero sair da casa dos 100. Sempre tive problemas de comer muito até passar mal, não tinha limites.

Vejo nitidamente uma relação entre as coisas: 'Hoje não bebi e não usei drogas, mas me entupi de comida'. É mais difícil controlar a vontade de uma pizza do que a de uma cerveja. Eu só penso assim: 'Não beba. A bebida é amarga, ruim e você está tomando remédios'. Precisei mudar alguns hábitos. Se for para sair, prefiro ir ao museu ou teatro. Não quero mais ir a barzinhos, pois não me acrescentam nada. Você tem de estar com as pessoas certas."

Depoimento concedido a Denise Dalla Colletta


15 junho, 2009

Ferreira Gullar: como tudo começou?

Para quem não está acompanhando, toda a polêmica com FERREIRA GULLAR e INTERNAÇÃO PSIQUIÁTRICA COMEÇOU A PARTIR DESTE ARTIGO:


Artigos
Uma lei errada
Portal Literal - Editora · Rio de Janeiro (RJ) · 13/4/2009 09:44 · 100 votos
Por FERREIRA GULLAR

Campanha contra a internação de doentes mentais é uma forma de demagogia

Publicado originalmente em 12.04.09 na FOLHA DE S PAULO

A CAMPANHA contra a internação de doentes mentais foi inspirada por um médico italiano de Bolonha. Lá resultou num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em repeti-la aqui e o resultado foi exatamente o mesmo.

Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir dos anos 70. Veio no bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era definida como sinônimo de cerceamento da liberdade individual, repressão "burguesa" para defender os valores do capitalismo.

A classe média, em geral, sempre aberta a ideias "avançadas" ou "libertárias", quase nunca se detém para examinar as questões, pesar os argumentos, confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.

Havia, naquela época, um deputado petista que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que "as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles". E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: "Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu".

Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra "manicômio", já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou "solitárias" para segregar o "doente furioso". Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno.

Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e evitam o delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um doente mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força ou o punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade mental. Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa, possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.

Com os remédios à base de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de internações prolongadas. Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo.

Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de "repressão burguesa", resultou numa lei que praticamente acabou com os hospitais psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o tratamento ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos graves, enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os atenda. As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.

É hora de revogar essa lei idiota que provocou tamanho desastre.


Extraído de: http://www.ferreiragullar.com.br/artigos/uma-lei-errada