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30 junho, 2009

Por que elas estão bebendo tanto?

Revista Galileu. Maio de 2009.


Nunca os balcões de bar e as reuniões dos Alcoólicos Anônimos receberam tantas mulheres; o que está por trás dessa sede toda?

Por Juliana Tiraboschi



"Muito esporadicamente", a jornalista Ivelise Cardo, 48 anos, gosta de tomar uma cervejinha. E "uma", no caso, não é apenas força de expressão, mas determina a quantidade, o teto: uma latinha e mais nada. Ela nunca chegou a ser dependente, mas considera que abusava do álcool , pois o que era hábito virou uma compulsão para o consumo quase diário. "Comecei a perceber meus motivos. Eu bebia porque todo mundo ia para o bar depois do trabalho, para relaxar", diz. Em 2004, ela procurou a Unidade de Pesquisa de Álcool e Drogas (Uniad), em São Paulo. Não para pedir ajuda para si, mas para incentivar uma amiga alcoólatra a se tratar. A colega nunca apareceu, mas Ivelise passou a frequentar reuniões semanais exclusivamente femininas, durante cerca de um ano. Depois desse período, ela se mudou para Santos, no litoral sul de São Paulo, e sabe que não pode deixar a guarda baixa. O máximo que se permite é, eventualmente, substituir a latinha de cerveja por uma taça de vinho. Uma só.

Longe de ser exceção, a história de Ivelise exemplifica uma tendência. Segundo dados do Ministério da Saúde em 27 cidades brasileiras, o uso abusivo de álcool (mais de quatro doses para mulheres e mais de cinco para homens numa mesma ocasião) tem se mantido igual entre eles, mas está aumentando no caso delas. Segundo o grupo de ajuda Alcoólicos Anônimos, há 15 anos a frequência era de uma mulher para cada seis homens atrás de ajuda. Hoje, são pelo menos três mulheres para cada seis homens, entre um milhão de pessoas atendidas pelo programa atualmente.

Segundo o AA, nos últimos 15 anos, o número de mulheres alcoólatras no Brasil passou de uma para cada seis homens para três a cada seis

 

E essa tendência não conhece fronteiras. Richard Grucza, da Escola de Medicina da Universidade de Washington, cruzou os dados de duas grandes pesquisas epidemiológicas realizadas nos Estados Unidos com um intervalo de dez anos entre elas, 1991-1992 e 2001-2002. A conclusão foi que mulheres nascidas após 1954 têm 1,5 mais chance de desenvolver dependência de álcool do que suas antecessoras, reflexo do "aumento substancial no hábito de beber das mulheres", afirma Grucza.

Elas começam cedo. Em uma comunidade do Orkut dedicada ao tema, um tópico no fórum perguntava quando havia sido o primeiro porre das participantes. Em geral, as garotas que responderam disseram que a iniciação se deu entre 11 e 15 anos. Uma delas considerava que começou tarde, "com 17". Estudiosos apontam uma série de motivos para que elas passassem a frequentar mais os bares desde meados da década de 1940, com o fim da Segunda Guerra Mundial. Um deles é que beber se tornou socialmente mais aceitável. A ex-dependente MG*, 61 anos, concorda. "O álcool é uma droga tão natural que quem não bebe é olhado de soslaio, as pessoas perguntam por que não está tomando", diz. Abstêmia há dois anos e meio, ela conseguiu livrar-se do vício e das constantes tremedeiras, queda de cabelo, diarréias e vômitos com terapia e remédios, mas considera-se em eterna recuperação. Na sua casa não entra álcool nem na forma de produtos de limpeza.

A fatia de homens de 18 a 44 anos que abusam da bebida se manteve em 30% entre 2006 e 2008. Entre as mulheres, cresceu de 10% para 12% no período

Além dos bares, escritórios e universidades também passaram a receber mais público feminino. Mais endinheiradas e educadas, elas tornaram-se protagonistas de cenas impensáveis décadas atrás, como um grupo de amigas desacompanhadas em um bar. Um desses grupos é formado por Marina, 27 anos, Raquel e C.*, ambas com 28. Todas são solteiras, têm diploma universitário, trabalham e gostam de sair de duas a três vezes por semana em São Paulo. Calculam que tomam de 6 a 10 copos de cerveja por encontro. "E mais uma dose de cachaça compartilhada", afirma Raquel. Para elas, a bebida é um meio de confraternização e relaxamento. Mas também pode ser uma válvula de escape. "Todo mundo tem a necessidade de fugir da realidade e de suprir carências", diz Raquel. Na visão dela, uns fazem isso por meio do álcool. Outros fazem compras compulsivamente ou assistem televisão.

Apesar de Marina afirmar que sua família acha que bebe excessivamente, ela acredita que possui uma tolerância aos efeitos do álcool maior que a média. "Algumas pessoas dizem que eu bebo 'como homem'." Para C., porém, um sinal de alerta mantém-se aceso. "Tem a preocupação com a saúde, mas tem mais a ver com usar o álcool para camuflar algo que está incomodando, tipo excesso de trabalho." Por outro lado, ter de cumprir as tarefas no escritório no dia seguinte faz a publicitária maneirar nos tragos noturnos.

ÚLTIMO GOLE
A maioria usa o advérbio "socialmente" para qualificar a convivência com os copos. E isso dificulta o diagnóstico do problema e as razões por trás dele. Umas bebem para esquecer o estresse, para acompanhar os amigos ou para se enturmar em eventos socioprofissionais. Outras encontram no hábito um alívio para problemas no casamento, nas relações com os filhos ou conflitos no trabalho. Os homens também bebem por essas razões, mas a relação delas com o álcool tem peculiaridades que preocupam os especialistas.

A começar por diferenças corporais. Segundo Márcia Fonsi, enfermeira e pesquisadora da Uniad, as mulheres possuem mais gordura corporal e em geral são mais baixas do que os homens, portanto, têm menos água. Por conta disso, o álcool é retido durante mais tempo no organismo e em uma concentração maior. O metabolismo feminino também demora mais para eliminar a bebida, e elas ainda estão sujeitas às oscilações de humor ligadas ao ciclo menstrual. Essas diferenças tornam a mulher mais suscetível a desenvolver dependência ou sofrer com pancreatites ou cirrose.

O número de mulheres que procuraram tratamento para dependência de álcool no Estado de São Paulo cresceu 78% entre 2004 e 2006, de 17.816 para 31.674

Segundo a psiquiatra Luizemir Lago, diretora do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (Cratod), as mulheres resistem mais do que os homens a buscar ajuda. "Pode ser pelo estigma com que a sociedade olha para as pessoas que sofrem com essa doença", diz. Mas isso está mudando. Nos últimos anos, cresceu 78% o número de pessoas do sexo feminino que procuraram o centro. O tratamento envolve terapia em grupo e individual e prescrição de medicamentos quando necessário. A médica atribui a porcentagem principalmente ao crescimento de oferta de atendimento público, realizado nos 43 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) paulistas. Também observa uma mudança comportamental. "Antes a mulher era trazida por alguém, agora ela mesma nos procura."

Na Uniad, que está com os grupos de ajuda suspensos, entre 2000 e 2006 o número de homens que buscou tratamento caiu de 155 para 59. Entre as mulheres, esse número subiu um pouco, de 24 para 29. O curioso é que, nos anos de 2002 e 2003 o número de pacientes femininas foi maior: 44 e 42, respectivamente. O que esses dois anos têm em comum? Duas novelas da Rede Globo exibidas nos períodos mostraram personagens que enfrentavam o alcoolismo. Em Por Amor, produção de 1997 reprisada em 2002, era Orestes (Paulo José) quem comovia as telespectadoras. Já em Mulheres Apaixonadas, de 2003, era a professora Santana (Vera Holtz) quem vivia o drama da dependência. "A novela ajuda muito na divulgação", diz a enfermeira Márcia Fonsi.

COMER E BEBER
Há outra peculiaridade no alcoolismo feminino: a relação entre a dependência de substâncias psicoativas, entre elas o álcool, e transtornos alimentares. "Muitas pacientes conseguem ficar abstinentes, mas se sentem esvaziadas e acabam encontrando uma saída na comida, que está mais disponível e mais perto da pessoa", diz a psicóloga Silvia Brasiliano, coordenadora geral e executiva do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud). A ligação é conturbada, e os alvos da compulsão podem se alternar. "Eu costumo brincar que as mulheres podem ser bêbadas, deprimidas, caídas, mas gordas jamais. Se ela parou de beber e engordou, vai voltar a beber." Há até um termo leigo para definir o comportamento que combina a restrição alimentar ao abuso de álcool: "drunkorexia", união dos termos "drunk" (embriagar) e "anorexia", que significa se privar de comida para beber sem se preocupar com as calorias das bebidas. Segundo a psicóloga, a drunkorexia "clássica" não é comum entre as pacientes do Promud. Mas a dependência alcoólica concomitante a problemas alimentares é bem mais freqüente: mais de 50% delas têm distúrbios como anorexia nervosa, bulimia ou transtorno do comer compulsivo. Por isso, o ideal é tratar tudo junto. 

Existem opiniões distintas em relação ao que seria um padrão de consumo seguro de álcool, mas o de Ivelise Cardo, aquela moça que toma somente um copo e de vez em quando, está mais do que dentro do que é considerado saudável por grande parte dos médicos. Um estudo do Centro para Pesquisa e Educação de Alta Tecnologia em Ciências Biomédicas da Universidade Católica, na Itália, afirmou que a mortalidade das adeptas do copo é reduzida ao se consumir no máximo uma dose diária de álcool (10 a 12 gramas de etanol). Isso equivale a uma taça de vinho de 100 a 120 ml, um copo de cerveja de 300 ml ou de 30 ml de destilado.

"Uma mulher que bebe uma dose por dia, de preferência durante as refeições, tem de 10 a 20% de redução de risco de morte se comparada com uma abstêmia", diz o pesquisador Augusto Di Castelnuovo. A partir daí, porém, o cenário muda. Ingerir de três a cinco doses por dia aumenta em 41% o risco de desenvolver câncer de mama ou ovário. Beber com frequência, mesmo moderadamente, pode provocar lesões no fígado.

É muita coisa a ser ponderada. Mas, como sempre, o bom senso é fundamental para quem não quer transpor a linha que separa o grupo animado do bar daquele das terapias coletivas.

"QUANDO ACORDEI ENTRE MENDIGOS, VI QUE ERA HORA DE PARAR"
A Escritora KN, 36 anos, relata o seu mergulho no mundo da compulsão por bebida, drogas e comida

"Comecei com 13 anos e, de lá pra cá, já fiquei inconsciente várias vezes e até entrei em coma. Passei um tempo morando com o meu pai, que não tinha nada para beber em casa. Na primeira oportunidade, saí, bebi e acordei na casa de estranhos.

Fui internada. Já estava bebendo todos os dias. Começava com um conhaque com Coca-Cola. Quando ia ver, já tinha tomado uma garrafa. Ia sozinha ao bar, saía de casa para beber. Tive uma recaída leve há nove meses. Atualmente, eu até evito pensar em bebida. Quando isso acontece, tudo volta: vergonha, derrota, ojeriza... O meu fundo de poço foi quando acordei debaixo de uma biblioteca, perto de mendigos. De um lado, tinha um cachorro. De outro, um homem estranho. Era o fim.

Eu era duas pessoas. Uma séria e outra desinibida, que bebia, que facilitava, que dançava. Um dia, num site de sexo, eu criei a Kris, uma personagem que tem compulsão sexual. Foi difícil reconhecer que no site sou um objeto, não uma pessoa. A Kris tinha que beber para transar. E a doutora me disse que, 'se você precisar beber para fazer sexo, não faça'. Isso bateu forte.

Durante um ano, eu tava fora das drogas, mas escondida no sexo. Percebo uma relação entre os problemas, as dependências vão mudando. Vou substituindo uma compulsão por outra. Eu pensava: 'Quando não tiver sexo, o que virá no lugar?'. Eu não quero mais dar nenhum vexame para mim mesma, porque não agüento mais. Sentia uma agonia, até que resolvi fazer alguma coisa.

Em 2003, quando estava com 107 quilos, fiz um regime e cheguei aos 90, fui beber para comemorar. Tenho vontade de me entupir de comida, mas sei que não posso. Sofro com o efeito sanfona. Estava com 120 quilos em outubro, estou com 102 agora. Quero sair da casa dos 100. Sempre tive problemas de comer muito até passar mal, não tinha limites.

Vejo nitidamente uma relação entre as coisas: 'Hoje não bebi e não usei drogas, mas me entupi de comida'. É mais difícil controlar a vontade de uma pizza do que a de uma cerveja. Eu só penso assim: 'Não beba. A bebida é amarga, ruim e você está tomando remédios'. Precisei mudar alguns hábitos. Se for para sair, prefiro ir ao museu ou teatro. Não quero mais ir a barzinhos, pois não me acrescentam nada. Você tem de estar com as pessoas certas."

Depoimento concedido a Denise Dalla Colletta


17 junho, 2009

Medicamentos

Agradecemos à Técnica de Enfermagem Denise Ramos da Trindade pela doação feita de:

  • Medicamentos

15 junho, 2009

Ferreira Gullar: como tudo começou?

Para quem não está acompanhando, toda a polêmica com FERREIRA GULLAR e INTERNAÇÃO PSIQUIÁTRICA COMEÇOU A PARTIR DESTE ARTIGO:


Artigos
Uma lei errada
Portal Literal - Editora · Rio de Janeiro (RJ) · 13/4/2009 09:44 · 100 votos
Por FERREIRA GULLAR

Campanha contra a internação de doentes mentais é uma forma de demagogia

Publicado originalmente em 12.04.09 na FOLHA DE S PAULO

A CAMPANHA contra a internação de doentes mentais foi inspirada por um médico italiano de Bolonha. Lá resultou num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em repeti-la aqui e o resultado foi exatamente o mesmo.

Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir dos anos 70. Veio no bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era definida como sinônimo de cerceamento da liberdade individual, repressão "burguesa" para defender os valores do capitalismo.

A classe média, em geral, sempre aberta a ideias "avançadas" ou "libertárias", quase nunca se detém para examinar as questões, pesar os argumentos, confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.

Havia, naquela época, um deputado petista que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que "as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles". E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: "Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu".

Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra "manicômio", já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou "solitárias" para segregar o "doente furioso". Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno.

Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e evitam o delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um doente mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força ou o punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade mental. Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa, possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.

Com os remédios à base de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de internações prolongadas. Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo.

Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de "repressão burguesa", resultou numa lei que praticamente acabou com os hospitais psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o tratamento ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos graves, enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os atenda. As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.

É hora de revogar essa lei idiota que provocou tamanho desastre.


Extraído de: http://www.ferreiragullar.com.br/artigos/uma-lei-errada


14 junho, 2009

Medicamentos

Agradecemos à Enfermeira Rosemary Prado Maynard pela doação feita de:

  • medicamentos: amostras grátis, doações de pacientes

12 junho, 2009

Avaliação da Saúde Bucal de Pacientes Psiquiátricos Internados no Hospital Universitário/UFS de 2008 a 2009

ORIENTADOR: Prof. Dr. Bernardo Ferreira Brasileiro (Departamento de Odontologia - UFS)

ORIENTANDOS:

  • Acd. de Odontologia (UFS) Raquel Correia de Medeiros
  • Acd. de Odontologia (UFS) Diego da Cruz Coelho

PROPÓSITO

Avaliar epidemiologicamente os pacientes portadores de desordens psiquiátricas atendidos na Unidade de Internação Psiquiatrica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU/UFS) no período de agosto de 2008 a maio de 2009.

COMO TRANSCORREU O TRABALHO

Durante este período todos os nossos pacientes da UIPHU-UFS receberam sistematicamente consultas odontológicas, e a partir destas consultas, conforme a necessidade, foram encaminhados aos ambulatórios de especialidades odontológicas para realizarem os tratamentos necessários: restaurações, tratamento endodôntico, etc.

Para muitas pessoas atendidas foi a primeira vez em que conseguiram ir ao dentista, chegando mesmo a comentar, no momento da alta, seu tratamento dentário como ponto alto da internação, e alvo de muitos elogios à instituição.

Assim, além de um trabalho acadêmico, foi realizado um trabalho de assistência excelente pela equipe da odontologia. Destacando-se o interesse notável dos estudantes em dar resolutividade aos casos.

Parabéns a todos vocês!

11 junho, 2009

Única urgência psiquiátrica de Sergipe não tem médicos


Data: 04/11/2008

A reportagem do Correio de Sergipe recebeu a denúncia de que a única urgência psiquiátrica de Sergipe, no Hospital São José, está sem médicos. Tal informação foi confirmada pelo diretor clínico do hospital, Dr. Carlos Vieira. Segundo ele, o número de médicos psiquiatras no estado é muito pequeno para a demanda, e a remuneração também espanta os profissionais que preferem atuar em clínicas particulares. "No último concurso público que fizemos, no ano passado, chamamos cinco aprovados, três deles não assumiram e os outros dois já pediram demissão", diz o diretor.


Atualmente, a urgência psiquiátrica do Hospital São José conta com apenas nove médicos, sendo que dois deles estão de licença. Todos atuam em regime de plantão, de seis a 12 horas. Mesmo assim, os sete profissionais disponíveis não conseguem atender a toda a demanda, que pode ultrapassar 1.300 pacientes por mês. "Nossa necessidade é de 12 médicos no total, porque só temos um psiquiatra por plantão", explica.

FONTE: Correio de Sergipe

10 junho, 2009

FALTAM HOSPITAIS PARA TRATAR PESSOAS COM DISTÚRBIO MENTAL

01/06/2009.

Os hospitais responsáveis pelo internamento de pessoas com transtornos mentais ou pelo uso de drogas, não estão atendendo a demanda existente. O Hospital Universitário (HU), os três centros de atenção psicossocial (Caps) de Aracaju, o Hospital São José, bem como as clínicas São Marcelo e Santa Maria não estão suprindo o número de pacientes que necessitam do serviço. Na manhã da última quinta-feira, representantes das redes municipal e estadual de Saúde estiveram reunidos, no Ministério Público Estadual, para discutir o problema. No próximo dia 8, uma nova audiência será realizada para que sejam apresentadas propostas concretas acerca do atendimento desses pacientes.


A diretora do Hospital Universitário, Ângela Maria da Silva, informou que a unidade necessita de ampliação em áreas diversas, que também apresentam urgência de atendimento, tornando-se, assim, difícil a disponibilização de recursos financeiros e humanos para a ampliação dos leitos psiquiátricos.

Aracaju

Os representantes da Secretaria de Saúde da capital reconheceram que há deficiência para atendimento em leitos psiquiátricos, notadamente quanto aos pacientes usuários de drogas, uma vez que, para casos psiquiátricos, o município dispõe de três centros. Informaram que se encontra em negociação, junto ao Hospital São José, a implantação de 13 leitos, ressaltando que estes serão direcionados para casos de álcool e outras drogas.

As clínicas disponibilizam 120 leitos para internamento para pacientes com transtorno mental. Em relação aos usuários de drogas, na Casa de Saúde Santa Maria, existem 30 leitos, dos quais 16 são para álcool e outras drogas e 14 para usuários de crack. Na Clínica São Marcelo são 14 para álcool e outras drogas, tendo atualmente dificuldade em encaminhar pacientes usuários de crack.

Sergipe

Os representantes da Secretaria de Estado da Saúde ressaltaram que o Estado não dispõe de unidade para atender esta demanda reprimida, tornando-se necessário o estabelecimento de acordos com outros serviços. Eles informaram que estão sendo discutidos meios para criação de um CAPS no interior do Estado. Além disso, estão ocorrendo negociações com os centros de atenção do interior, com a finalidade de que os pacientes em surto sejam atendidos em hospitais locais.

09 junho, 2009

SP terá de ampliar rede para saúde mental

Folha De São Paulo. 06 de junho de 2009.

Justiça Federal manda prefeitura implantar mais 57 ambulatórios psiquiátricos e 37 serviços residenciais terapêuticos. 

Prazo para instituição dos primeiros 12 centros é de três meses; Secretaria de Negócios Jurídicos diz que vai esperar notificação

VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO
DA REPORTAGEM LOCAL


A Justiça Federal determinou à Prefeitura de São Paulo que amplie o atendimento psiquiátrico com a implantação de mais 57 ambulatórios de saúde mental e outros 37 serviços residenciais terapêuticos -locais de readaptação à sociedade para pacientes do sistema público de saúde. 

Com a decisão, a gestão Gilberto Kassab (DEM) tem agora o prazo de três meses para instituir os primeiros 12 centros, sendo que um terá que funcionar durante as 24 horas do dia. 

Oito anos após a lei da reforma psiquiátrica no país, que determinou que as internações hospitalares se dariam apenas em último caso, os serviços criados ainda têm problemas. O acesso é precário em dez Estados, entre eles São Paulo, onde a qualidade do atendimento é considerada regular ou baixa pelo Ministério da Saúde. Para a procuradora da República Adriana da Silva Fernandes, uma das autoras da ação, a reforma psiquiátrica em São Paulo "não saiu do papel". "A lei prevê um novo tratamento da saúde mental. Os centros ambulatoriais são insuficientes para atender à população. Quem sai dos hospitais não tem onde se tratar", diz. 

A lei, de 2001, referendou uma discussão iniciada nos anos 1970. Grupos antimanicômio passaram a defender tratamentos alternativos à hospitalização, e milhares de leitos psiquiátricos foram cortados pelo governo na década de 90. Hoje, o ministério diz que a internação só deve ocorrer quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem "insuficientes" .

"A expansão é desejável, mas a decisão tem de ser acompanhada de um planejamento bem feito. Não adianta abrir hospitais se não houver capacitação para trabalhar. Há uma escassez de gente qualificada" , diz Sérgio Tamai, chefe do departamento de saúde mental da Santa Casa e da Sociedade Brasileira de Psiquiatria. 

A decisão, da qual ainda cabe recurso, determina ainda que o Estado de São Paulo vistorie os ambulatórios psiquiátricos no prazo de 15 dias. 

A Secretaria de Negócios Jurídicos da prefeitura disse não ter sido notificada da decisão e que, quando for, "adotará as providências cabíveis". 

Em abril, a prefeitura havia informado que entregaria neste ano cinco ambulatórios de atendimento 24 horas. 


08 junho, 2009

Mulher tenta matar os dois filhos e se suicidar

www.jornaldacidade.net

28/05/2009 07:00:00

Mulher tenta matar os dois filhos e se suicidar

Uma odontóloga com 38 anos, em tratamento psiquiátrico por conta de Depressão Pós-Parto (DPP), foi presa no final da tarde de anteontem, depois de tentar o suicídio e matar, por afogamento na praia de Atalaia, os filhos com 3 anos e dez meses de vida. O fato aconteceu por volta das 16h30, e só não se consumou graça a ação de dois adolescentes que estranharam a ação da mulher, que entrava no mar com os filhos nos braços. As crianças foram encaminhadas até o Posto do Corpo de Bombeiros, onde receberam os primeiros cuidados. Enquanto a mulher foi levada até o Centro de Apoio a Grupos Vulneráveis (CAGV) onde foi autuada em flagrante. Na manhã de ontem, a defesa da acusada impetrou pedido de liberdade provisória junto à 1ª Vara Criminal de Aracaju, mas até o fechamento desta edição não se tinha informações sobre a concessão ou não do pedido.

Os adolescentes contaram à polícia que, caminhavam pelo calçadão quando observaram uma mulher entrando na praia e rumando para a parte mais profunda com duas crianças nos braços. O ocorrido chamou a atenção dos adolescentes, que ficaram observando a desconhecida para descobrir o que ela pretendia fazer. Em dado momento, a mulher foi derrubada por uma onda e eles resolveram entrar na água para fazer o salvamento. De acordo com o relato dos adolescentes, o menino de 3 anos chorava muito, enquanto o bebê de 10 meses estava arroxeado. Eles lembraram que ao pegar as crianças a mulher gritava “Eu quero matar. Vocês não podem fazer isso por meus filhos”.

Com a ajuda de um homem que passava de moto pelo local, as crianças foram levadas até o posto dos Bombeiros onde receberam os primeiros socorros. Em seu depoimento, a odontóloga disse que está em tratamento psiquiátrico em decorrência da depressão pós-parto, mas não vinha tomando regularmente a medicação prescrita pelo médico. De acordo com o relato da mulher, na tarde da última terça-feira estava em casa e como à psiquiatra queria conhecer os dois filhos, por isso resolveu levá-los para a consulta que estava agendada. Ela alegou que, enquanto trafegava de carro, passou a analisar a vida das crianças e achou que elas não eram felizes, decidindo assim matá-las e depois praticar o suicídio.

No depoimento prestado a polícia, a mulher lembrou que enquanto entrava na água, o menino de 3 anos pediu para ela voltar. Indo de encontro ao relato dos adolescentes que retiraram as crianças da água, a odontóloga disse que foi nesse momento que teve consciência do que estava fazendo e resolveu pedir socorro aos surfistas. A odontóloga foi autuada em flagrante por tentativa de homicídio pela delegada especial de Proteção a Criança e Adolescente Vítima, Georlize Teles.

URL: http://www.jornaldacidade.net/noticia.php?id=33845

01 junho, 2009

“Ninguém aguenta uma pessoa delirante dentro de casa”



Está nas bancas: Revista Época desta semana. Em uma entrevista à base de VERDADE  e não de ideologias.

29/05/2009 20:59
“Ninguém aguenta uma pessoa delirante dentro de casa”
Um dos maiores críticos da falta de vagas para internação psiquiátrica, o poeta Ferreira Gullar conta a ÉPOCA a experiência de ter convivido com dois filhos esquizofrênicos - o que ainda está vivo mora hoje num sítio em Pernambuco.
Cristiane Segatto

Daryan Dornelles
SEM OPÇÕES
Ferreira Gullar diz que as famílias sem recursos não têm onde pôr filhos com doenças mentais
O poeta Ferreira Gullar, 78 anos, teve dois filhos com esquizofrenia. Paulo, 50 anos, vive num sítio em Pernambuco há cinco. Marcos, que tinha um quadro mais leve da doença, morreu em 1992, de cirrose hepática. Recentemente, Gullar escreveu três artigos no jornal Folha de S. Paulo sobre a falta de vagas para internação psiquiátrica. A reação dos leitores chamou atenção para uma das maiores controvérsias da psiquiatria: o que fazer com doentes mentais em estado grave? Gullar concedeu a seguinte entrevista a ÉPOCA em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro (confira ao final desta página um vídeo com trechos da conversa).

ÉPOCA - A lei federal 10.216, aprovada em 2001, não proíbe a internação de pacientes em hospitais psiquiátricos, mas estimulou a redução de leitos. Por que decidiu falar sobre essa lei agora?
Ferreira Gullar - Antes da aprovação da lei, soube do que consistia o primeiro projeto. Para internar uma pessoa, a família precisaria pedir autorização de um juiz. Felizmente isso foi retirado do texto final. Imagine o que é ter em casa um garoto em estado delirante - às vezes falando sem parar da noite até o dia seguinte. Os pais tentam dar remédio, tentam conversar e nada funciona. Nessa situação, o único recurso é internar. Você sente que a pessoa está saindo do controle e pode fazer uma loucura qualquer. Imagine ter de aguardar autorização de um juiz para internar um paciente numa situação de emergência. Que juiz? Aquele que nunca encontramos na justiça eficiente que temos? Imagine o desastre que isso seria.

ÉPOCA - Mas por que decidiu escrever neste momento?
Gullar - Li notícias recentes sobre o aumento de doentes mentais na população de rua. Eu já previa que isso ia acontecer diante da restrição do número de hospitais e do período de internação. Como é possível estabelecer um período de internação, determinar que um paciente psiquiátrico esteja curado dentro de determinado tempo? Quem não tem dinheiro para colocar o filho numa clínica particular fica com ele em casa até quando suportar. Muitas vezes o doente foge. Quantas vezes isso aconteceu comigo... Ele foge, vai para rua sem rumo. Ninguém sabe para onde vai.

ÉPOCA - O doente precisa ficar vigiado dentro de casa?
Gullar - Ninguém aguenta uma pessoa em estado de delírio dentro de casa. Só se ninguém trabalhar, todo mundo ficar em volta do doente. E se for uma pessoa agressiva? Tem que internar. Nenhum pai e nenhuma mãe internam seus filhos contentes da vida, achando que se livraram. Não estou dizendo que a lei foi feita para perseguir as pessoas. Não vou imaginar uma coisa dessas. Ela foi feita com boa intenção. Mas de boa intenção o inferno está cheio.

ÉPOCA - O senhor acha que a internação em hospitais psiquiátricos é o melhor tratamento?
Gullar - Ninguém é a favor de manicômio ou de encerrar uma pessoa pelo resto da vida. Isso não existe há muito tempo. Mas hoje as famílias sem recursos não têm onde pôr seus filhos. Eles vão para a rua. São mendigos loucos, mendigos delirantes. Podem agredir alguém. É imprevisível o que pode acontecer. O Ministério da Saúde tem de olhar isso. O hospital-dia é uma boa coisa. Mas para o doente ir para o hospital-dia ele tem que querer ir. Quando entra em surto, é evidente que não vai querer ir para o hospital-dia. Dizer que os doentes serão encarcerados é terrorismo.

ÉPOCA - Qual a sua opinião sobre a visão do movimento de luta antimanicomial?
Gullar - Esse pessoal não diz explicitamente, mas eu sei que para eles não existe doença mental. Por que falam em psiquiatria democrática? Existe urologia democrática? A psiquiatria democrática pressupõe que as pessoas internam seus parentes para cercear a liberdade deles. Segundo essa linha, o cara não é doido. Ele é um dissidente. Isso vem da época das drogas, da época dos Beatles, da época em que as pessoas diziam “tu tá pinel”. O que era isso? A classe média cheirava cocaína e ia parar no Pinel. Não eram doidos. Mas, levada a uma overdose, a pessoa pode entrar num estado de delírio. Esse pessoal acha que a máfia de branco cerceia a liberdade das pessoas. Pessoas que são dissidentes da sociedade burguesa. A psiquiatria democrática considera que a sociedade é que é doente e reprime aqueles que discordam dela.

ÉPOCA - Por que o sr. diz que isso é um marxismo equivocado?
Gullar - A raiz ideológica da psiquiatria democrática é a ideia de que não existe doença. A sociedade é que é culpada porque é burguesa. Quando eu estava exilado em Buenos Aires, nos anos 70, fui conversar com os médicos no hospital onde meu filho Paulo (hoje com 50 anos) havia sido internado depois de um surto. Uma médica veio conversar comigo e disse que o problema não era do meu filho. Era da família e da sociedade. Disse para ela: então me interna.

ÉPOCA - Paulo estava com você no exílio?
Gullar - Nessa época, sim. Um dia ele teve um surto e sumiu. Foi encontrado em estado totalmente delirante e foi internado. A médica chamou a mim e a minha mulher para conversar. Eu disse: coração adoece, rim adoece sem que a sociedade seja culpada de nada. O cérebro é o único órgão que não adoece por si? A sra. não acha que uma pessoa pode nascer com uma deficiência fisiológica no cérebro? O que está por trás de tudo isso é uma visão equivocada.

ÉPOCA - Quando seus filhos receberam o diagnóstico de esquizofrenia?
Gullar - Os dois começaram a falar disparates e a se comportar de maneira anormal. Isso se manifestou quando tinham 15 ou 16 anos. A doença foi precipitada pela droga. Era um período que cheirar cocaína, fumar maconha e consumir LSD estavam na moda. Surgiram anormalidades, mas eu não fiz nada. Atribuía o comportamento deles às drogas.


Daryan Dornelles
LEMBRANÇAS
Gullar diz ter saudades do filho, Paulo. "A gente se fala todo dia. Mas se ele vier para cá e começar a usar droga de novo, tudo vai recomeçar."

ÉPOCA - Eles falavam sem parar?
Gullar - No começo, diziam: “Meu cérebro está vazio, não tenho mais cérebro, o LSD consumiu meu cérebro”. Coisas ilógicas. Percebi que havia algo errado, mas esperava que as coisas se acomodassem. Eu dava conselhos para que eles parassem de usar drogas. Quando fui de Lima para Buenos Aires (havia a perspectiva de um trabalho lá), um dia Paulo desapareceu. Desceu para a rua e sumiu. Terminou sendo localizado, estava preso. Ele, que nunca havia dirigido antes, pegou um carro que estava parado. Tentou roubar o carro sem saber dirigir. Coisa de pirado mesmo. Só consegui localizá-lo um mês depois. Voltou para casa em estado totalmente delirante. Quebrou a janela toda. Queria sair pela janela do quinto andar. Fui obrigado a chamar o socorro psiquiátrico. Ele começou a tomar os remédios. Um dia fugiu do hospital. Veio aparecer no Brasil dois meses depois.

ÉPOCA - Foi nessa ocasião que o sr. pediu ajuda ao Vladimir Herzog (jornalista morto pela ditadura em 1975)?
Gullar - Um dia ele fugiu do Rio e foi aparecer em Taboão da Serra, em São Paulo. Um homem o encontrou sentado na lama e na chuva. Levou-o para casa e deu-lhe banho. Paulo deu o meu endereço em Buenos Aires e o homem me escreveu. Quando recebi a carta, liguei para a Revista Visão, onde o Herzog trabalhava, e pedi ajuda. Ele se prontificou a ir imediatamente buscá-lo em Taboão. Quando chegou, Paulo já havia fugido. Foi encontrado por uma freiras, caído na estrada, e foi levado para um convento. Depois a família o encontrou e ele foi internado em uma clínica particular no Rio. Quando voltei do exílio, em 1977, assumi esse problema todo. Descobri que existia o Instituto Bairral, em Itapira, no interior de São Paulo. Parecia uma fazenda, uma estação de repouso. Ele ficou alguns meses nessa clínica particular. Isso não é a família que decide. São os médicos. Quando voltou ao Rio, veio morar com a família. Mudei de Ipanema para Copacabana porque descobri que havia um fornecedor de drogas para ele em Ipanema. Não demorou muito e a mesma coisa começou a acontecer em Copacabana.

ÉPOCA - O sr. conseguia escrever com eles em casa?
Gullar - Uma pessoa esquizofrênica não está permanentemente em estado de surto. Às vezes fica sozinha no quarto. O problema é quando ocorre o surto. O Paulo passou muitos anos com a família. Passava seis meses internado e voltava para casa. Às vezes passava um ano sem ter nada. Mas não pôde trabalhar nem estudar. Não tinha condição, nem disposição, interesse.

ÉPOCA - Paulo aceita o tratamento facilmente?
Gullar - Às vezes fingia que tomava o remédio, mas cuspia fora. Leva tempo até o doente aceitar o remédio, entender que ele ajuda. Paulo mora há cinco anos no sítio de um amigo meu em Pernambuco. Não está internado, mas é como se estivesse. Cuida dos cavalos, cria uns gatinhos, pinta quadros. Lá ele toma o remédio sozinho. Quando entra numa derrapada e deixa de tomar o remédio, começam os problemas. Mas hoje ele tem muito mais consciência da doença. Amadureceu. É uma pessoa mais afetuosa.

ÉPOCA - O sr. tem saudade?
Gullar - Tenho. A gente se fala todo dia. Mas se ele vier para cá e começar a usar droga de novo, tudo vai recomeçar. Ele está controlado porque não tem droga onde vive. Com droga fica excitado, alucinado, agresssivo.

ÉPOCA - A condição de seus filhos influenciou sua literatura?
Gullar - Tudo influencia na vida, mas eu procuro me colocar diante das coisas com lucidez. Nao me deixou levar por desesperos, por bobagens. Não sou nenhum Super-Homem, mas sempre procurei entender as coisas e encontrar o caminho mais correto. Claro que isso foi um grande sofrimento durante anos e anos. Pode ter se refletido na minha literatura. Mas a minha literatura não é de desespero. Recebo cartas de pessoas que disseram que se salvaram, que tiveram coragem de enfrentar seus problemas lendo meus poemas. Evito pregar o desespero. Muitas vezes estou desesperado, mas jamais transmito isso para as pessoas.

ÉPOCA - O que lhe desespera?
Gullar - Estar com um filho numa situação dessa é estar num estado de desespero. Estar sendo perseguido pela ditadura também. Viver clandestino durante um ano, sem ver sua mulher, seus filhos, seus amigos, é desespero. Uma pessoa pode fazer desse desespero a matéria de sua literatura. Nunca fiz isso.

ÉPOCA - O poema Internação, publicado em 1999, é autobiográfico? Aquilo aconteceu entre você e Paulo?
Gullar - É. Meu filho falou sobre o vento no rosto e eu fiz o poema. Aquilo é bonito, não é desespero. Nunca fiz do meu sofrimento individual a matéria da minha poesia. Nunca quis transferir para os outros o meu desespero, o meu amargor. Procuro não ter amargor e enfrentar as coisas. Sei que a vida é inventada. Ela depende de mim. Se eu invento uma vida infernal, ela será infernal. Nao vou ficar sentado à beira da calçada, chorando. Isso não resolve problema algum.

ÉPOCA - Alguma vez o Paulo foi agressivo?
Gullar - Foi.

ÉPOCA - Contra o sr.?
Gullar - Não quero falar sobre isso. Chegou a ser agressivo. Mas, passado o momento do surto, ele se arrependeu.

ÉPOCA - Ele tentou suicídio?
Gullar - Tentou uma vez. Tem um problema de coluna porque se jogou de uma clínica, de um andar baixo. A pessoa precisa ser protegida. Não sabe o que está fazendo. Depois, rindo, me disse: “Pai, você não vai acreditar. Naquele exato momento, pensei que fosse voar”.

ÉPOCA - Depois dos artigos que escreveu, muita gente lhe procurou?
Gullar - Recebi cartas, convites para participar de congressos. Não é a minha matéria. Falei como um cidadão que tem uma tribuna e pode dizer as coisas. Não tenho a intenção de criar um movimento. Uma mulher escreveu uma carta para a Folha pedindo uma providência contra mim. Que providência ela quer? A minha demissão? Ela é da psiquiatria democrática. Imagine se fosse da psiquiatria ditatorial.