Hospital Universitário. 1º Andar. Rua Cláudio Batista s/n. Bairro Santo Antônio. Aracaju - SE. CEP 49060-100. Tel 79-2105-1761.

01 junho, 2009

“Ninguém aguenta uma pessoa delirante dentro de casa”



Está nas bancas: Revista Época desta semana. Em uma entrevista à base de VERDADE  e não de ideologias.

29/05/2009 20:59
“Ninguém aguenta uma pessoa delirante dentro de casa”
Um dos maiores críticos da falta de vagas para internação psiquiátrica, o poeta Ferreira Gullar conta a ÉPOCA a experiência de ter convivido com dois filhos esquizofrênicos - o que ainda está vivo mora hoje num sítio em Pernambuco.
Cristiane Segatto

Daryan Dornelles
SEM OPÇÕES
Ferreira Gullar diz que as famílias sem recursos não têm onde pôr filhos com doenças mentais
O poeta Ferreira Gullar, 78 anos, teve dois filhos com esquizofrenia. Paulo, 50 anos, vive num sítio em Pernambuco há cinco. Marcos, que tinha um quadro mais leve da doença, morreu em 1992, de cirrose hepática. Recentemente, Gullar escreveu três artigos no jornal Folha de S. Paulo sobre a falta de vagas para internação psiquiátrica. A reação dos leitores chamou atenção para uma das maiores controvérsias da psiquiatria: o que fazer com doentes mentais em estado grave? Gullar concedeu a seguinte entrevista a ÉPOCA em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro (confira ao final desta página um vídeo com trechos da conversa).

ÉPOCA - A lei federal 10.216, aprovada em 2001, não proíbe a internação de pacientes em hospitais psiquiátricos, mas estimulou a redução de leitos. Por que decidiu falar sobre essa lei agora?
Ferreira Gullar - Antes da aprovação da lei, soube do que consistia o primeiro projeto. Para internar uma pessoa, a família precisaria pedir autorização de um juiz. Felizmente isso foi retirado do texto final. Imagine o que é ter em casa um garoto em estado delirante - às vezes falando sem parar da noite até o dia seguinte. Os pais tentam dar remédio, tentam conversar e nada funciona. Nessa situação, o único recurso é internar. Você sente que a pessoa está saindo do controle e pode fazer uma loucura qualquer. Imagine ter de aguardar autorização de um juiz para internar um paciente numa situação de emergência. Que juiz? Aquele que nunca encontramos na justiça eficiente que temos? Imagine o desastre que isso seria.

ÉPOCA - Mas por que decidiu escrever neste momento?
Gullar - Li notícias recentes sobre o aumento de doentes mentais na população de rua. Eu já previa que isso ia acontecer diante da restrição do número de hospitais e do período de internação. Como é possível estabelecer um período de internação, determinar que um paciente psiquiátrico esteja curado dentro de determinado tempo? Quem não tem dinheiro para colocar o filho numa clínica particular fica com ele em casa até quando suportar. Muitas vezes o doente foge. Quantas vezes isso aconteceu comigo... Ele foge, vai para rua sem rumo. Ninguém sabe para onde vai.

ÉPOCA - O doente precisa ficar vigiado dentro de casa?
Gullar - Ninguém aguenta uma pessoa em estado de delírio dentro de casa. Só se ninguém trabalhar, todo mundo ficar em volta do doente. E se for uma pessoa agressiva? Tem que internar. Nenhum pai e nenhuma mãe internam seus filhos contentes da vida, achando que se livraram. Não estou dizendo que a lei foi feita para perseguir as pessoas. Não vou imaginar uma coisa dessas. Ela foi feita com boa intenção. Mas de boa intenção o inferno está cheio.

ÉPOCA - O senhor acha que a internação em hospitais psiquiátricos é o melhor tratamento?
Gullar - Ninguém é a favor de manicômio ou de encerrar uma pessoa pelo resto da vida. Isso não existe há muito tempo. Mas hoje as famílias sem recursos não têm onde pôr seus filhos. Eles vão para a rua. São mendigos loucos, mendigos delirantes. Podem agredir alguém. É imprevisível o que pode acontecer. O Ministério da Saúde tem de olhar isso. O hospital-dia é uma boa coisa. Mas para o doente ir para o hospital-dia ele tem que querer ir. Quando entra em surto, é evidente que não vai querer ir para o hospital-dia. Dizer que os doentes serão encarcerados é terrorismo.

ÉPOCA - Qual a sua opinião sobre a visão do movimento de luta antimanicomial?
Gullar - Esse pessoal não diz explicitamente, mas eu sei que para eles não existe doença mental. Por que falam em psiquiatria democrática? Existe urologia democrática? A psiquiatria democrática pressupõe que as pessoas internam seus parentes para cercear a liberdade deles. Segundo essa linha, o cara não é doido. Ele é um dissidente. Isso vem da época das drogas, da época dos Beatles, da época em que as pessoas diziam “tu tá pinel”. O que era isso? A classe média cheirava cocaína e ia parar no Pinel. Não eram doidos. Mas, levada a uma overdose, a pessoa pode entrar num estado de delírio. Esse pessoal acha que a máfia de branco cerceia a liberdade das pessoas. Pessoas que são dissidentes da sociedade burguesa. A psiquiatria democrática considera que a sociedade é que é doente e reprime aqueles que discordam dela.

ÉPOCA - Por que o sr. diz que isso é um marxismo equivocado?
Gullar - A raiz ideológica da psiquiatria democrática é a ideia de que não existe doença. A sociedade é que é culpada porque é burguesa. Quando eu estava exilado em Buenos Aires, nos anos 70, fui conversar com os médicos no hospital onde meu filho Paulo (hoje com 50 anos) havia sido internado depois de um surto. Uma médica veio conversar comigo e disse que o problema não era do meu filho. Era da família e da sociedade. Disse para ela: então me interna.

ÉPOCA - Paulo estava com você no exílio?
Gullar - Nessa época, sim. Um dia ele teve um surto e sumiu. Foi encontrado em estado totalmente delirante e foi internado. A médica chamou a mim e a minha mulher para conversar. Eu disse: coração adoece, rim adoece sem que a sociedade seja culpada de nada. O cérebro é o único órgão que não adoece por si? A sra. não acha que uma pessoa pode nascer com uma deficiência fisiológica no cérebro? O que está por trás de tudo isso é uma visão equivocada.

ÉPOCA - Quando seus filhos receberam o diagnóstico de esquizofrenia?
Gullar - Os dois começaram a falar disparates e a se comportar de maneira anormal. Isso se manifestou quando tinham 15 ou 16 anos. A doença foi precipitada pela droga. Era um período que cheirar cocaína, fumar maconha e consumir LSD estavam na moda. Surgiram anormalidades, mas eu não fiz nada. Atribuía o comportamento deles às drogas.


Daryan Dornelles
LEMBRANÇAS
Gullar diz ter saudades do filho, Paulo. "A gente se fala todo dia. Mas se ele vier para cá e começar a usar droga de novo, tudo vai recomeçar."

ÉPOCA - Eles falavam sem parar?
Gullar - No começo, diziam: “Meu cérebro está vazio, não tenho mais cérebro, o LSD consumiu meu cérebro”. Coisas ilógicas. Percebi que havia algo errado, mas esperava que as coisas se acomodassem. Eu dava conselhos para que eles parassem de usar drogas. Quando fui de Lima para Buenos Aires (havia a perspectiva de um trabalho lá), um dia Paulo desapareceu. Desceu para a rua e sumiu. Terminou sendo localizado, estava preso. Ele, que nunca havia dirigido antes, pegou um carro que estava parado. Tentou roubar o carro sem saber dirigir. Coisa de pirado mesmo. Só consegui localizá-lo um mês depois. Voltou para casa em estado totalmente delirante. Quebrou a janela toda. Queria sair pela janela do quinto andar. Fui obrigado a chamar o socorro psiquiátrico. Ele começou a tomar os remédios. Um dia fugiu do hospital. Veio aparecer no Brasil dois meses depois.

ÉPOCA - Foi nessa ocasião que o sr. pediu ajuda ao Vladimir Herzog (jornalista morto pela ditadura em 1975)?
Gullar - Um dia ele fugiu do Rio e foi aparecer em Taboão da Serra, em São Paulo. Um homem o encontrou sentado na lama e na chuva. Levou-o para casa e deu-lhe banho. Paulo deu o meu endereço em Buenos Aires e o homem me escreveu. Quando recebi a carta, liguei para a Revista Visão, onde o Herzog trabalhava, e pedi ajuda. Ele se prontificou a ir imediatamente buscá-lo em Taboão. Quando chegou, Paulo já havia fugido. Foi encontrado por uma freiras, caído na estrada, e foi levado para um convento. Depois a família o encontrou e ele foi internado em uma clínica particular no Rio. Quando voltei do exílio, em 1977, assumi esse problema todo. Descobri que existia o Instituto Bairral, em Itapira, no interior de São Paulo. Parecia uma fazenda, uma estação de repouso. Ele ficou alguns meses nessa clínica particular. Isso não é a família que decide. São os médicos. Quando voltou ao Rio, veio morar com a família. Mudei de Ipanema para Copacabana porque descobri que havia um fornecedor de drogas para ele em Ipanema. Não demorou muito e a mesma coisa começou a acontecer em Copacabana.

ÉPOCA - O sr. conseguia escrever com eles em casa?
Gullar - Uma pessoa esquizofrênica não está permanentemente em estado de surto. Às vezes fica sozinha no quarto. O problema é quando ocorre o surto. O Paulo passou muitos anos com a família. Passava seis meses internado e voltava para casa. Às vezes passava um ano sem ter nada. Mas não pôde trabalhar nem estudar. Não tinha condição, nem disposição, interesse.

ÉPOCA - Paulo aceita o tratamento facilmente?
Gullar - Às vezes fingia que tomava o remédio, mas cuspia fora. Leva tempo até o doente aceitar o remédio, entender que ele ajuda. Paulo mora há cinco anos no sítio de um amigo meu em Pernambuco. Não está internado, mas é como se estivesse. Cuida dos cavalos, cria uns gatinhos, pinta quadros. Lá ele toma o remédio sozinho. Quando entra numa derrapada e deixa de tomar o remédio, começam os problemas. Mas hoje ele tem muito mais consciência da doença. Amadureceu. É uma pessoa mais afetuosa.

ÉPOCA - O sr. tem saudade?
Gullar - Tenho. A gente se fala todo dia. Mas se ele vier para cá e começar a usar droga de novo, tudo vai recomeçar. Ele está controlado porque não tem droga onde vive. Com droga fica excitado, alucinado, agresssivo.

ÉPOCA - A condição de seus filhos influenciou sua literatura?
Gullar - Tudo influencia na vida, mas eu procuro me colocar diante das coisas com lucidez. Nao me deixou levar por desesperos, por bobagens. Não sou nenhum Super-Homem, mas sempre procurei entender as coisas e encontrar o caminho mais correto. Claro que isso foi um grande sofrimento durante anos e anos. Pode ter se refletido na minha literatura. Mas a minha literatura não é de desespero. Recebo cartas de pessoas que disseram que se salvaram, que tiveram coragem de enfrentar seus problemas lendo meus poemas. Evito pregar o desespero. Muitas vezes estou desesperado, mas jamais transmito isso para as pessoas.

ÉPOCA - O que lhe desespera?
Gullar - Estar com um filho numa situação dessa é estar num estado de desespero. Estar sendo perseguido pela ditadura também. Viver clandestino durante um ano, sem ver sua mulher, seus filhos, seus amigos, é desespero. Uma pessoa pode fazer desse desespero a matéria de sua literatura. Nunca fiz isso.

ÉPOCA - O poema Internação, publicado em 1999, é autobiográfico? Aquilo aconteceu entre você e Paulo?
Gullar - É. Meu filho falou sobre o vento no rosto e eu fiz o poema. Aquilo é bonito, não é desespero. Nunca fiz do meu sofrimento individual a matéria da minha poesia. Nunca quis transferir para os outros o meu desespero, o meu amargor. Procuro não ter amargor e enfrentar as coisas. Sei que a vida é inventada. Ela depende de mim. Se eu invento uma vida infernal, ela será infernal. Nao vou ficar sentado à beira da calçada, chorando. Isso não resolve problema algum.

ÉPOCA - Alguma vez o Paulo foi agressivo?
Gullar - Foi.

ÉPOCA - Contra o sr.?
Gullar - Não quero falar sobre isso. Chegou a ser agressivo. Mas, passado o momento do surto, ele se arrependeu.

ÉPOCA - Ele tentou suicídio?
Gullar - Tentou uma vez. Tem um problema de coluna porque se jogou de uma clínica, de um andar baixo. A pessoa precisa ser protegida. Não sabe o que está fazendo. Depois, rindo, me disse: “Pai, você não vai acreditar. Naquele exato momento, pensei que fosse voar”.

ÉPOCA - Depois dos artigos que escreveu, muita gente lhe procurou?
Gullar - Recebi cartas, convites para participar de congressos. Não é a minha matéria. Falei como um cidadão que tem uma tribuna e pode dizer as coisas. Não tenho a intenção de criar um movimento. Uma mulher escreveu uma carta para a Folha pedindo uma providência contra mim. Que providência ela quer? A minha demissão? Ela é da psiquiatria democrática. Imagine se fosse da psiquiatria ditatorial.

5 comentários:

  1. Eu já tinha lido a entrevista e, pessoalmente, achei maravilhosa. Ele expôs tudo muito bem e concordo quase tudo. A reforma manicomial foi muito importante em diversos aspectos, mas gerou esse grande problema da falta de leitos para o qual ainda mantém-se os olhos fechados.

    Ioná

    ResponderExcluir
  2. É raro poder apreciar tanta SANIDADE MENTAL na análise de um problema que a princípio seria particular, mas que na verdade é um problema social.

    Concordo plenamente com as palavras de Ferreira Gular, principalmente quando ele menciona que não há UROLOGIA DEMOCRÁTICA: Psiquiatria é terra de ninguém, isto é, todos se julgam no direito de achar alguma coisa sobre o tratamento, e fazer conforme acham, sem que estejam CIENTIFICAMENTE embasados.
    É a maior prova de que a sociedade NEGA a existência da doença mental, afinal se fosse realmente doença seria doença igual às doenças do coração, dos rins, do fígado ,etc.
    Mas, os governos e a opinião pública não dão importância à desasistência pela qual passa a população brasileira, sergipana inclusive, sequer estão preocupados com o fato de que doenças mental também MATA.

    ResponderExcluir
  3. É raro poder apreciar tanta SANIDADE MENTAL na análise de um problema que a princípio seria particular, mas que na verdade é um problema social.

    Concordo plenamente com as palavras de Ferreira Gular, principalmente quando ele menciona que não há UROLOGIA DEMOCRÁTICA: Psiquiatria é terra de ninguém, isto é, todos se julgam no direito de achar alguma coisa sobre o tratamento, e fazer conforme acham, sem que estejam CIENTIFICAMENTE embasados.

    É a maior prova de que a sociedade NEGA a existência da doença mental, afinal se fosse realmente doença seria doença igual às doenças do coração, dos rins, do fígado ,etc.

    Mas, os governos e a opinião pública não dão importância à desassistência pela qual passa a população brasileira, sergipana inclusive, sequer estão preocupados com o fato de que doença mental também MATA.

    ResponderExcluir
  4. Agora que entrei em contato com a rede de saúde mental ainda mais e passei a interagir por mais tempo com os profissionais de saúde mental, começei a perceber uma certa alienação reinante em relação à hospitalização. O enfoque único e exclusivo é a luta antimanicomial. Quando se veicula uma propaganda ou algo como a entrevista/depoimento de Ferreira Gullar já arregalam os olhos, alteram o tom de voz e dizem que há uma força pró-manicomial, que é um retrocesso, que querem voltar ao antigo modelo e um blá blá sem fim.
    Na verdade, creio eu, o que existe é uma denúncia ao descaso, um apelo para abrandar um grande buraco que foi aberto e abandonado. Não é preciso esquecer o que já foi alcançado.
    É possível coexistir.

    ResponderExcluir
  5. "Esse pessoal acha que a máfia de branco cerceia a liberdade das pessoas. Pessoas que são dissidentes da sociedade burguesa. A psiquiatria democrática considera que a sociedade é que é doente e reprime aqueles que discordam dela"

    E o q seria dos doentes e seus parentes sem a máfia de branco para os proteger? Nada contra a máfia de branco q cuida das outras partes do corpo, mas a q cuida do cérebro é má!!! Violenta por exemplo a liberdade de escolha do cidadão que quer bater fortemente com a cabeça na parede! lol

    Afinal, a sociedade é que é culpada... Isso me lembra "O Alienista", de Machado de Assis e a busca do "quem internar"... depois da comicidade de internar praticamente a cidade inteira e perceber q não resolve o problema, o alienista encerra-se em contemplação de si mesmo e suas duvidas... O Alienista ficou só e sem respostas.

    Pena q a visão das pessoas parece não ter evoluído nada desde a época de Machado, sec. XIX, no auge do cientificismo, em que já se questionava se internar era mesmo sinônimo de aprisionar.

    Tanta coisa evoluiu, a ciência mostra-se tão mais humana, há tanto investimento na aproximação médico-paciente, mas mesmo assim a máfia de branco ainda está na imaginação coletiva como excêntricos cerceadores de liberdade. É pena.

    ResponderExcluir

Seu comentário é bem-vindo. Escreva-o abaixo e brevemente ele estará publicado no site.
ATENÇÃO: não publicamos comentários anônimos, nem ofensivos.
Obrigada.